Monday, February 9, 2009

Elogio ao amor (Miguel Esteves Cardoso)


Elogio ao amor (Miguel Esteves Cardoso - Expresso)"

Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.

O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixonade verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão alimesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia aspessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passívelde ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios.Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia serdesmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amorcego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há,estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, sãouma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nascostas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida,o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea porsopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amorfechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor éamor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como nãopode. Tanto faz. É uma questão de azar.

O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio,não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não sepercebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor éa nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.

O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe.Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amorque se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado,viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se podeceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."

O Espaço ou a Solidão (4) o Lar perdido


Pessoa perdeu a casa da infância, perdeu o paraíso do nõa pensar e da inconsciência. Mas a casa natal está fisicamente inscrita nele porque agora ele é o enverhecimento e a ruína dessa casa :

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes …

O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),

O que eu sou hoje é terem vendido a casa,

É terem morrido todos …

[Campos, 473]

Todos os que povoam esse lar, espaço, onde ele integra as recordações agradáveis e os sonhos. É nessa casa da infância que « s’établissent les valeurs de songe, dernières valeurs qui demeurent quand la maison n’est plus. » (Gaston Bachelard, La poétique de l’espace) ; nessa casa « em que festejavam o dia dos seus anos ».:

A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas – doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado

[Campos, 473]

Lhe chegam à memória no momento da raiva que tem de si próprio por não ter sabido conservar esse passado. Raiva porque a casa chorada era o canto do mundo onde ele podia agora ser feliz – sempre uma possível realização dentro de uma coisa que não existe. Esse lar é o pretexto para os desejos dos seus sonhos de paz e uma região longinqua, uma região-recordação que tem o valor da zona de protecção de que o poeta a cada momento precisa. Ele está a habitá-la em sonho e a casa que nos mostra é a fixação de uma infância que subitamente parou para deixar ao poeta só um pouco de loucura (« Quand, dans la nouvelle maison, reviennent les souvenirs des anciennes demeures, nous allons au pays de l’Enfance Immobile, immobile comme l’Immémorial » G. Bachelard, id.).:

Pobre velha casa da minha infância perdida !

Quem te diria que eu me desacolhesse tanto !

Que é do teu menino ? Está maluco.

(…) Quem de quem fui ? Está maluco. Hoje é quem eu sou.
[Campos, 490]

Na posse da loucura que traz « exactamente na cabeça », ele será sempre o arredado, em desacerto permanente com ele, com os outros e com a vida que é um espaço fechado, só definível por paradoxos e inexactidões :

Sou naquele salão como qualquer pessoa

Mas o sobrado é côncavo e as portas não acertam

A tristeza das bandeiras crucificadas nos entrevãos das portas

É uma tristeza feita de silêncio desnivelada

Pelas janelas reticuladas entra a luz quando é dia

Que entorpece os vidros das bandeiras e recolhe a recontos montões de negrume

Correm às vezes frios ventosos pelos extensos corredores

Mas há cheiro a vernizes velhos e estalados nos recantos dos salões

E tudo é dolorido neste solar de verlharias.

[Pacheco, 542]

Nesta sucessão de imagens exemplificativas, há uma visão da vida limitada que o avisado Ricardo Reis subscreve :

(…) Usaremos a existência

Como a vila que os deuses nos concedem.

[Reis, 325]

Mesmo querendo usufruir, epicuristicamente, do tempo que lhe é dado para passar neste planeta, ele fecha-o num espaço, que, se bem que agradável, não deixa de fazer ressaltar a existência como uma prisão : a vila tem paredes e muros e grades …
Pensando e vivendo à sombra da nostalgia de um paraós perdido, não poderá o poeta voltar a encontrá-lo ? Não, e esta é uma trágica cláusula do seu contrato de inadaptado. Proscrito de um deus que lhe deu uma vida de que depois se esqueceu, a felicidade só poderá ser para os outros, por quem, aliás, nutre uma espécie de empatia. A contemplação dos homens oferece-lhe moldes concretos em que se vasa a sua sensibilidade emotiva ao pensar no que possui ou não possui. Estabelece-se uma correspondência entre o poeta e os seus semelhantes – estes são a projecçãõ, muitas vezes, mesmo, um complemento de dramatismo da consciência do poeta.
A felicidade, dizia, não é para ele. Se a vislumbra em sonho, logo o seu eu pensante e consciente, interferindo no processo onírico, a destrói. « Coração oposto ao mundo » do lar que nunca terá, a ventura só existe para os outros, onde ele não está, na casa onde ele não mora – sempre o sentimento em negativo daquilo que não tem –

Na casa defronte de mim e dos meus sonhos,
Que felicidade há sempre !

[Campos, 491]

Esta oposição repete-se constantemente no poeta ortónimo e heterónimo e se bem que a felicidade dos outros resida mais no que ele lhe atribui em pensamento do que na ventura real deles, a repetição marca a obsessão e a convicção de que para ele nada pode existir de agradável. Ele é o eterno divorciado da realidade feliz : « So tenho por consolação / Que os olhos se me vão acostumando / À escuridão” (Inéd., 553) .

« Outros terão / Um lar … » (Inéd., 553) qualquer processo de construção de vida « defronte » da abulia e do tédio do poeta. Ele instala-se na sua solidão e chega ao paradoxo de afirmar que « Até amaria o lar, desde que o não tivesse » (Campos, 476) – confissão de adesão a uma felicidade negativa.

[Maria da Glória Padrão, A Metáfora em Fernando Pessoa, 1981]

Sunday, February 8, 2009

O Espaço ou a Solidão (3) o Paraíso perdido


Pessoa está só por se ter afastado de um mundo de ventura a que não conseguirá novamente voltar.

A presentificação do paraíso que perdeu desdobra-se em dois grupos de imagens: o conjunto dos espaços que recordam um mundo feliz e um outro que objectiva a limitação de um presente triste.

Depois de perdido o paraíso da alma, o poeta sente-se deslocado e situado num mundo que não é para ele. Foi « amado em efígie num país para além dos sonhos » e agora confessa-se « desterrado da Pátria antiquíssima da minha Crença ». Na passividade da aceitação por ele programada, mede-se como o estrangeiro que é, como « deidade exilada », ente « exilado das supernas luzes ». Deportado, por imposição dos deuses, arrasta, como condenação, o simples desejo de felicidade a que chama erro :Aqui, neste misérrimo destêrro

Onde nem desterrado estou, habito,

Fiel, sem que queira, àquele antigo êrro

Pelo qual sou proscrito

[Reis, 419]

Também Pessoa autónimo é um deportado do sonho, da esperança, do amor e da glória, “conjunto absurdo” que ele entrevê sempre onde quer que passe. Na prisão em que se acha não é mais do que o exilado de uma outra vida qua pensa voltar a encontrar :

Aqui onde se espera

(…) Isso que outrora era,

(…) Aqui, aqui estarei

(…) Como no exilio um rei.

[Cancioneiro]

E Álvaro de Campos, “patriota transitório duma mesma pátria incerta » que todos nós integramos, não deixa de se sentir estrangeiro num mundo de estrangeiros :

O florir do encontro casual

Dos que hão sempre de ficar estranhos …

O único olhar sem interêsse recebido no acaso

Da estrangeira rápida …

[Campos, 454]

« Estrangeiro aqui como em toda a parte » (Campos), viajando muitas vezes com a mesma passageira num comboio suburbano mas cruzando-se somente com ela, vendo a rua « com uma nitidez absoluta » – lojas, passeios, carros que passam, « entes vivos vestidos que se cruzam », « cães que também existem » – e pesando-lhe isto tudo « como uma codenação ao degredo » afirma-se crente numa outra vida que ressalto no idealismo platónico e ocultista da obra lírica e épica de Pessoa ortónimo.

Lembra-se a attitude paralela em vivência e expressão de um outro deslocado que não foi alheio a Fernando Pessoa :

"À une passante

La rue assourdissante autour de moi hurlait.

Longue, mince, en grand deuil majestueuse,

Une femme passa, d’une main fastueuse

Soulevant, balançant le feston et l’ourlet ;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.

Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,

Dans son œil, ciel livide où germe l’ouragan,

La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair … puis la nuit ! – Fugitive beauté

Dont le regard m’a fait soudainement renaître

Ne te verrai-je plus que dans l’éternité ?

Ailleurs, bien loin d’ici ! trop tard ! jamais peut-être !

Car j’ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,

O toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais !"

[Charles Baudelaire, Les fleurs du mal]

A simbologia mítica de que a Excalibr, o Sul sidério, Galaaz, a Rosa, o Templo, o Pai Rosaeacruz, para só citar alguns exemplos, são elementos constitutivos, é uma das técnicas de recuperação do paraíso da alma, usadas por Pessoa.

A essa simbologia e com a mesma finalidade, vem acrescentar-se o ouro, a cinza do poente, a Hora que « sabe a ter sido », o « porto infinito » da poesia paùlista ou ainda a persistência com que quase abusa das palavra « antigo », « antiquíssimos » e « longinquo ».

As referencias feitas acima servem-nos como o trampolim para estabelecer o contraste entre o mundo de um além de « antes de tempo e espaço e vida e ser » e o mundo do concreto em que o poeta vive. Para a definição do seu momento actual concorrem as imagens de espaço : desterro, exílio, prisão, cela – « Todo o universo é uma cela, e o estar preso não tem que ver com o tamanho da cela ». De facto, o tamanho varia : tanto pode ser a vastidão que comporta os astros – « Vastidão vã que finge de infinito / Como se o infinito se pudesse ver ! » – como as reduzidas e aviltantes dimensões duma aldeola (Campos) ou as de um « largo onde ladram cães ». E levantada até à tragédia a voz de Campos, numa alternância de concreto e abstracto, grita qual era a mais torturante prisão para o poeta :

Cárcere do Ser, não há libertação de ti ?

Cárcere de pensar, não ha libertação de ti ?

A obsessão do paraíso perdido vai colocar-nos no espaço do lar também perdido.

[Maria da Glória Padrão, A Metáfora em Fernando Pessoa, 1981]

Saturday, February 7, 2009

O Espaço ou a Solidão (2) as Ilhas do mar do sul


As ilhas do mar do sul não ficam em qualquer ponto do Pacifico com longitude e latitude determinadas; o oriente não é o Oriente; “todos os portos a que cheguei” não existem em nenhuma costa; Dar-es-Salaam ou Madagascar não são lugares geográficos; os jardins com flores ou com ervas nunca viram o luz do sol; a colina do guardador de rebanhos é um acidente orográfico feito de conceito sobre conceito; a cidade persa dos jogadores de xadrez existiu sem cidadãos e sem jurisdição; a estrada que ele percorreu ainda está virgem de passos humanos. Tudo isto são lugares imprecisos que se perdem num perto ou num longe mas que rimam com vivência essencial intima. Um e outro mundo – o do espaço imaginado e o do espaço experimentado – se encorajam no seu crescimento, adquirem uma expansão cada vez maior e explicam-se mutuamente. Partindo do que pensa e sente e buscando apoio em suportes objectivos, o poeta metaforiza permanentemente e essa metaforização é fonte constante de repostas ou de caminhos para a nossa indagação.

Pessoa projecta-se todo na vastidão exterior.

O heterónimo Caeiro é o homem da terra, é o guardador de rebanhos que quando se estende ao comprido na erva, sente que se deita na realidade. O fim último da metafísica do Caeiro sem metafísica é o aniquilamento da pessoa humana e, portanto, do pensamento, para existir só como mais um ser – pedra, regato, ovelha ou flor. Na pretensa fusão total com o univreso-natureza, até a sua voz com ele se irmana – « era como a voz da terra que é tudo e ninguém » (Álvaro de Campos, Notas para a recordação do meu mestre Caeiro). Não é nesta mistificação que vai encontrar solução para o seu drama. Se é ao espaço totalmente aberto que se entrega é porque tem pretensões – ele sabe que inúteis ! – a ser só esse fora que poetiza para minorar a sua trituração mental e para apagar a tortura de dentro. O fora élhe ditado por um dentro em que não encontra explicação nem razão para a vida.

Assim também em Reis, se bem que a natureza exterior na sua poética seja outra. O lugar que o heterónimo horaciano escolhe não é já pela encosta abaixo ; é a calma do « pouco espaço que é própria dos pincaros » (Álvaro de Campos, Nota preliminar às Odes de Ricardo Reis) ou a quietude da beira-rio simbolos do « antes sossego que fruição » a que quer aderir. Natureza plácida e fria procurada em fundo e forma, a altura ou a margem em que gostaria de se descobrir não as encontrará nunca porque a ataraxia a que é preciso ser fiel para ali se achar, não passa de outro sofisma, conducente, mais uma vez, ao « vácuo absurdo da existência » (Fernando Pessoa, António Botto e o ideal estético em Portugal) ?

É ainda no espaço aberto, continente de todo o processo de energia, que Campos pretende viver. É aos mares e às cidades, num abraço fraterno de civilização e máquinas, numa aceitação indescriminada de qualquer forma de vida, é ao mundo todo « na própria pele sentido », à máxima intensidade da sensação de todas as coisas, que ele se quer dar. A Campos tenta-o outra espécie de fora – o universo do social e do cosmopolita – mas a causa é a mesma : a vida do pensamento precisa de formar para si outro modo de fingir e espraia-se numa nova estruturação mental que desagua no absurdo.

Se em Caeiro e em Reis, o poeta falha por se despojar do humano, aqui falha por afundar a pique na vastidão do humano e o homem que se quis ponto de convergência de toda a realidade, que foi a insubstancialidade do que é insubstancial, depressa se desmascara : toda a actividade pressuposta nos gritos estridentes de algumas das suas odes, vai soçobrar no cansaço, na desilusão e na desagregação.

E assim, Campos é fiel a si próprio, a Reis, a Caeiro e a Pessoa ele mesmo.

Também este, na paisagem do crepúsculo, no ar de cada instante, no « universo da rua dos Douradores » ou na indeterminação de lugares se desobra ao sabor de brisas e marés não encontrando no exterior a unidade que não encontra dentro de si.

De carácter contemplativo, liberto das realidades próximas, Pessoa detém-se a procurar, num espaço qualquer, uma reposta para os seus problemas e a sua inteligência passa-o para o lado de lá do positivio. Na cisão com a realidade palpável, o poeta vai ainda encontrar uma forma nova de solidão no retorno ao infinito pelos ciclos de consciência englobante – várias vezes a sua poesia nos deixa supor um eu do eu, acima desse mais outro e assim sucessivamente :

« Não sou eu quem descrevo. Eu sou a teia / E oculta mão colora alguém em mim. ; Sinto que sou ninguém salvo uma sombra / De um vulto que não vejo … ; Além da minha alma, que outra alma há na minha? ; De quem é o olhar / Que espreita por meus olhos ? ; De onde é que estão olhando para mim ? / Que coisas incapazes de olhar estão olhando para mim ? / Quem espreita de tudo ? ; Não meu, não meu é quanto escrevo / A quem o devo ? / De quem sou o arauto nado ? (Cancioneiro) ;

Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta / Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos ? … (Campos) ; Anjos ou deuses, sempre nós tivemos, / A visão perturbada de que acima / De nós e compelindo-nos / Agem outras presenças. (Reis) ; Meu ser existe sem que seja meu / É anônimo persiste .. (Inédito) »

A sua poesia sugere antes sucessivos graus (e não fases) do eu, que iriam desde a personalidade concreta em dado momento até formas talvez descarnadas, e graduadas em série indefinida, de consciência cósmica mais ou menos contemplativa que ele designa, por vezes, como os deuses.

No devassar dos espaços, rompe com a vida imediata, vai cavando um fosso entre ele e essa vida. A contemplação da grandeza que tem em si, põe-no perante um mundo que traz a marca de um infinito e é assim que ele se encontra cada vez mais só. « Eu desejaria viver ou ser adentro de mim como vivem ou são os espaços » (Pacheco). E os espaços interior e exterior crescem e as duas imensidades tocam-se e confundem-se. É a solidão.

Até o processo estilístico do autor a vai revelar. Por trás das palavras está uma concepção do mundo, e, para Pessoa, a solidão entra de tal modo no âmago desse mundo que o sistema de vocábulos que integram a sua imagística do espaço é formado, predominantemente, por substantives, é o elemento estilístico menos revelador de movimentos emocionais. O uso do adjectivo, ingrediente de poder diferenciativo, poderia levar-nos a estabelecer uma escala de valores de aproximação ou afastamento no espaço, e assim, a determinar em momentos diferentes no tempo, momentos diferentes na solidão. Mas se o poeta atravessa a vida a esconder-se atrás dos seus óculos de míope e a entrincheirar-se nas suas variadas mistificações, por que razão não haveria de se esconder também na opacidade dos substantivos da sua poesia ? No entanto, ele não se esconde, antes se revela, nessa substantivação com pouca gradação adjectiva : é que o espaço imenso está sempre nele porque a solidão é total e inconscientemente surgo só o substantivo, palavra objectiva, metáfora a suscitar o real.

Debaixo da pluralidade de substantivos que se desdobram em imagens obsessivas ou em metáforas banais e que integram a sua poética de espaço aberto ou fechado, esconde-se a formulação de vários problemas que vão consolidar sempre e cada vez mais fortemente a certeza que o poeta tem de se encontrar só.

Pátria, largo, aldeola, gare, estrada, floresta, oásis, deserto, ilha, jardim, montanha, sul, lar, poltrona, muro ou porta são o disfarce da inutilidade e da aridez da vida, disfarce do mistério que para nós é a vida do concreto e do abstracto, da limitação do universo, do sentimento de passagem que o poeta tem a certas horas, da muralha da vontade impedindo realizações, da inacessibilidade a uma terra de promissão, seja ela um jardim, o quintal dos outros ou uma ilha. Toda esta problemática tem como resultante o sentimento da solidão.

[Maria da Glória Padrão, A Metáfora em Fernando Pessoa, 1981]

A Philosophical life

[Giorgione, Three Philosophers]

To lead a philosophical life means also to take seriously our experience of men, of happiness and hurt, of success and failure, of the obscure and confused. It means not to forget but to possess ourselves inwardly of our experience, not to let ourselves be distracted but to think problems through, not to take things for granted but to elucidate them.
(Jaspers,1951:122)

Contrary to a life either without solid substance or a life in which this substance is never affected, only the enthusiastic attitude means a life awake, a life in totality and authenticity... Enthusiasm is becoming oneself in the act of devoting oneself.
(Jaspers: The Illumination of Existenz:119)

Small is beautiful


"Grand unified theories do not include the force of gravity. This does not matter too much, because gravity is such a weak force that its effects can usually be neglected when we are dealing with elementary particles or atoms. However, the fact that it is both long range and always attractive means that its effects all add up. So for a sufficiently large number of matter particles, gravitational forces can dominate over all other forces. This is why it is gravity that determines the evolution of the universe. Even for objects the size of stars, the attractive force of gravity can win over all the other forces and cause the star to collapse."

[Stephen W. Hawking, A brief history of time]

O Espaço ou a Solidão (1) a profundidade da solidão


Estou só, só como ninguém ainda estêve
[Álvaro de Campos]

É bem conhecido, e nada mais me cabe do que lembrá-lo, que um dos pontos de reflexão das considerações de Fernando Pessoa é a solidão a que qualquer ser humano está votado, mas ele muito especialmente, ao multiplicar os raciocinos com que põe em questão as categorias do real e com que pensa e repensa a sua posição do homem triplamente solitário : perdido diante da infinidade cósmica, divorciado dos outros por se ter adiantado demais aos companheiros de viagem e afastado de si próprio por não encontrar a unidade que nem os deuses têm. (« Deus não tem unidade, Como a terei eu ? »)

Ao longo da vida e da obra, Pessoa, está obsessivamente só, mas é ele o criador da profundidade da sua solidão e, consequentemente, é também o criador do espaço da sua poesia. Poeta entregue à vastidão de água, céu ou terra e à imensidão indefinida da ‘beira-ser’ ou de um além onde « os poentes são », é, por paralelismo, o homem entregue ao espaço individual e incomensurável de um mundo do pensamento que vai crescendo em extensões indeterminadas e que vai sondando a grandeza da solidão que traz em si.

A imaginação cria-lhe extensões arrancadas ao seu mundo intimo e é daí que surgem os espaços abertos que Pessoa ortónimo e heterónimo nos faz percorrer ao longo da sua poética. O deserto, ou a floresta volvem-se nos em espaço interior e não são aqueles que sugerem este, mas é o apelo intimo da imensidade que vai fazer surgir a extensão e a distância.

[Maria da Glória Padrão, A metáfora em Fernando Pessoa, 1981]

Friday, February 6, 2009

Liberdade (Fernando Pessoa)


Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não fazer !
Ler é maçada,
Estudar é nada.
Sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,

Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como o tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D.Sebastião,
Quer venha ou não !

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

Mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa, de Cancioneiro

Le traitement des immondices


Il est sans doute significatif, dans l’ordre emblématique d’une époque, que les premiers profits d’une industrie cherchant de nouvelles orientations proviennent du traitement des immondices. La ligne du progrès et du progressisme court désormais de la reconversion des déchets à la reconversion du vieux monde comme déchet.

Vaste travail ! À la montagne de détritus qu’exhaussait sans relâche le gaspillage lucratif de biens originellement gâtés s’ajoute l’amoncellement de ce qui nos a gâté l’existence : l’État, la bureaucratie, l’armée, la police, la religion, le travail, la famille.


Issu d’un accouplement entre la surconsommation de produits nul et non avenus et l’agencement officieux du besoin de les acheter, l’engrossement du secteur tertiaire a enfanté une bureaucratie parasitant la société active, la tétanisant par ses ponctions financières.

L’essentiel, cependant, ne suffit plus à l’existence. Non seulement le confort et l’aisance grâce auxquels la survie escomptait tromper son ennui ont déçu les espérances, mais il est né de la richesse factice dont s’affublait le quotidien un sentiment de pauvreté vécue que rien ne pourra effacer si ce n’est la vie redécouverte et recréée.

Le minimum vital ne se borne plus dès maintenant aux moyens de se loger, de se nourrir, de se vêtir, de se déplacer, de s’instruire, de se rencontrer. Il entre dans les contingences du néo-capitalisme de nous combler sur l’accessoire. Il nous rendra la fraîcheur des légumes et des fruits en place des cultures chimiques, la saveur du bœuf en pâture au lieu des vaches martyrisées dans ces élevages concentrationnaires qui servent de modèle à l’ordonnancement des banlieues et des écoles. Il extirpera des paysages les tumeurs bétonnées dont les affligèrent les intérêts immobiliers et réinventera l’art d’habiter. Il épurera l’air des nuisances chimiques et nucléaires. Il ralliera à lui ceux qui n’ont pas résolu de mourir avec un monde qui se meurt. Mais de tous ces bienfaits il ne restera qu’un immense désenchantement si nous n’apprenons pas dès maintenant à prélever dans ce que l’économie nous lègue de plus aimable et de plus redoutable de quoi affiner sans trêve nos désirs d’une vie plus humaine. Jusqu’à cet état de grâce ou le vivant ne crée partout que la vie.

tancredo infrasonic

Coreografia invisível


Não sei o que pensam os pássaros quando, nas tardes de sábado, dormem sobre os fios de alta tensão. Os pássaros têm sábados frustrados. Todas as coisas que podiam ter sido, não foram. Também não sei o que pensam os homens enquanto dormem os pássaros pelos sábados adentro. Sei que os homens têm insônia e fecham as janelas. Instituem a escuridão, apagam as palavras e desintegram-se em longos silêncios. As coisas que podiam ter sido? Tornaram-se banalidades. Em qualquer tempo há fios de alta tensão e pernas de mulheres com sangue fervendo. Tantas que chegam a ser ignoradas. Despojos do amor? A desproporção criou homens-deuses vulgares e divinizados. Criou profissionais especialistas em argumentação. Braços em torno do pescoço, bocas de estátuas coladas e música para preencher os vazios. Mas o objeto deste texto é o amor. O sujeito também. Amor em construção. Quatro paredes lentas e penosas do lado de cá do horizonte onde pretendo improvisar ninhos e desprender pássaros do sonho.
Mas o tempo urge, razão pela qual me deito, mesmo, à terra. Todas as coisas se revelam e se negam continuamente. Finjo não perceber. Repouso minha cabeça sobre o seio da ignorância. A metafísica rodeia os meus limites. Há coisas se encontrando, também, fora de nós. A ficção quer escrever minha história. Que imagem faria? Oh! vida, esse tempo desperdiçado dentro do olhar. Minha única tristeza não é triste. Incongruência? Limpe os olhos que este texto tem a loucura da forma. Plasticidade e linguagem. Os literatos, os eruditos e eu, e nada de concreto. Que sabemos sobre os pássaros frustrados sobre o fio de alta tensão? Somos carentes de amor, sexo e sonhos. Somos carentes de sabedoria. Um dia Deus apareceu homem entre os homens e o crucificaram. Daí meu medo de existir. Daí esse silêncio áspero de Sábado. Meus conflitos me apequena. Gritos surdos por dentro. Somente as palavras são capazes de secar as lágrimas. Palavras e dedos. Dedos escalavrados pelo tempo percorrendo traços e linhas do meu rosto. Doce ternura para quem partiu todos os espelhos e já não mais se reconhece. Eu que tenho em mim o movimento dos outros, o conhecimento dos outros, o idioma dos outros, a reação dos outros... eu sulcada pelos outros e estrangulada pelas minhas próprias mãos. Só o amor me salva. Só o amor produz essa lentidão sagrada de observar pássaros cheio de vôos. O amor sabe de cor os vôos e os movimentos. Conhece o lugar, o istmo onde os homens choram. Os homens são belos, sobretudo, quando choram. Homem-mar numa ilha de chuva. Uma imagem onde me completo. Não totalmente. Uma mulher satisfeita traz em si um ponto final. Eu tenho vocação para reticências e excessos. Amanheço e todas as bocas se abrem. Famigerada fome de idealismo. Não nos basta a vida?
O pássaro olha com todos os olhos mas nada avista. Tem os sentidos esquecidos. Esqueceu-se de quem era, de como era... só sabe cantar, cantar. Se respirasse uma idéia, tornar-se-ia gente com todo niilismo inerente. Gente que nega qualquer coisa a qualquer hora. Que nega a palavra, a raça, as idéias.. gente que nega a cruz, a história, a colonização... gente que ignora as tardes de sábado quando discretamente um pássaro voa estabelecendo ligações entre as coisas visíveis.

[Lucilene Machado]

Liberdade


« Sabes que há uma multidão de gente que estão doente da própria saúde mesmo, eis dizer da própria certeza desmedida que são gente normal. »

[duma carta de Dostoïevski]


O mundo é tão mortífero porque está nas mãos de gente que têm começado matar a si mesmos, estrangular em si mesmos toda a confiança instintiva, toda a liberdade dado de antemão. Sempre estou espanto com o pouco de liberdade que cada um outorga-se, essa maneira de pegar a respiração na janela das convenções, e o vapor que dá isso, o impedimento de viver, de amar.

tancredo infrasonic

Tuesday, February 3, 2009

Totality


The widespread and pervasive distinctions between people (race, nation, family, profession, etc., etc.), which are now preventing mankind from working together for the common good, and indeed, even for survival, have one of the key factors of their origin in a kind of thought that treats things as inherently divided, disconnected, and ‘broken up’ into yet smaller constituent parts. Each part is considered to be essentially independent and self-existent.

When man thinks of himself in this way, he will inevitably tend to defend the needs of his own ‘Ego’ against those of the others; or, if he identifies with a group of people of the same kind, he will defend this group in a similar way. He cannot seriously think of mankind as the basic reality, whose claims come first. Een if he does try to consider the needs of mankind he tends to regard humanity as separate from nature, and so on. […] Man’s general way of thinking of the totality, i.e. his general world view, is crucial for overall order of the human mind itself. If he thinks of the totality as constituted of independent fragments, then that is how his mind will tend to operate, but if he can include everything coherently and harmoniously in an overall whole that is undivided, unbroken, and without a border (for every border is a division or break) then his mind will tend to move in a similar way, and from this will flow an orderly action within the whole.

[David Bohm, Wholeness and the Implicate Order]

Monday, February 2, 2009

Lumière matinale


La plupart de nos connaissances reposent sur le meurtre des espèces et le tourment du monde. Nous avons besoin de nous instruire d'autre façon.
Ce qu'une vallée, un jardin, un chat, un regard émerveillé révèlent de beauté dans la simplicité de vivre n'est qu'un aspect infime de l'attrait qu'au-delà de la contemplation nous saurons un jour accorder à chaque instant de l'existence, avec cet art et cet amour que Turner mettait à faire surgir de ses brumes la lumière matinale.

Sunday, February 1, 2009

Une femme - avec des cheveux éclatants


Une Femme

Avec des cheveux éclatants,

Avec des yeux de mouette, avec une outre sur le ventre,

Mère ou traître bienveillant,

Qui connaît cette femme en feu?


Ses ongles approcent mon bois,

La fièvre de ses griffes éveille ma peau en rut.

Tel un cor de chasse elle me corne dans les cheveux.


Elle approche en replis et en éclairs,

Dans l'ardeur, la résine, l'éclat,

Tandis qu'en état de désir,

Pointé comme un fusil et irrévocable,

Prêt à l'attaque et au meurtre,

Courbé, agenouillé, j'enlace,

Je laboure et j'abats la bête qui embaume

Entre le doux cuir des genoux.


Elle fend mon silex

Dans la chaleur connue.


[Hugo Claus, Een vrouw trad. du néerlandais]

Saturday, January 31, 2009

Rilke - as Elegias de Duíno


A poesia é um território de misterios. E de mensagens codificadas que só os menos distraídos conseguem ler. É um torneio entre quem sente que o sangue lhe aquece demasiado as veias e quem tenta afastar o véu com que as palavras se escondem do sentido normal. Se o coração do mundo fosse feito de palavras a poesia seria uma religião. A úlima fronteira entre o que adivinhamos e aquilo que supomos poder existir. Rainer Maria Rilke é um dos maiores poetas deste século. Não é uma condecoração, é um heroísmo que dispensa foguetes. Ler As Elegias de Duíno é sentir que quando um poeta chega ao cuma da interrogação o segredo não se reparte. E a poesia de Rilke é feita de segredos que não têm chave para serem mostrados.

Aqui, nesta obra que começou a escrever em 1912, no Castelo de Duíno, junto a Trieste, e que só terminará uma década mais tarde, ele discorre sobre aquele que é o seu tema de sempre : as relações da vida com a morte. A sua ligação, como se a um mundo que percorremos correspondesse um outro – invisível – que é a consequência lógica. Em Rilke encontramos, como em muito poucos outros, a fúria da distância – o que separa os seres humanos das coisas que os cercam, e fundamentalmente uns dos outros.

Nós porém, quando tendemos inteiramente para Uma coisa logo sentimos o excesso de outra, A inimizade é-nos prôxima. Os próprios amantes que um ao outro se prometiam imensidão, coutada e pátria, não deparam constantemente com limites ?

A vida é então um conjunto de muitos segredos que se gerem, até que sejamos chamados sabe-se lá para onde (outro mistério). A poesia de Rilke desnuda-nos os limites do homem na sua fúria de viver sem sentido. A felicidade nunca poderia morar aqui. Rilke se deve ler quando o vento faz cair as folhas das árvores. Todas as certezas do mundo.

Friday, January 30, 2009

Mr. T's dancing a dream (pictural poetry)


Em desejo possuída
se joga,
se rasga,
se estraga
contra os móveis,
sobre as plantas,

entremuros,
se vê fera,
se faz cadela,
se morde serpente,

ferida em seu desvario
no mais escondido

recanto do seu
bem querer,
no seu coração

purple e ávido

que ela

desfibra devagar.

ela é mulher, ela é linda
ela me faz feliz



Mr. T.

The Arrow of Time


"In order to survive, human beings have to consume food, which is an ordered form of energy, and convert it into heat, which is a disordered form of energy ...
The laws of science do not distinguish between the forward and backward directions of time. However, there are at least three arrows of time that do distinguish the past from the future. They are the thermodynamic arrow, the direction of time in which disorder increases; the psychological arrow, the direction of time in which we remember the past and not the future; and the cosmological arrow, the direction of time in which the universe expands rather than contracts. ... The psychological arrow is essentially the same as the thermodynamic arrow ... and the reason we observe this thermodynamic arrow to agree with the cosmological arrow is that intelligent beings can exist only in the expanding phase. [...]

The progress of the human race in understanding the universe has established a small corner of order in an increasingly disordered universe. If you remember every word in this book, your memory will have recorded about two million pieces of information: the order in your brain will have increased by about two million units. However, while you have been reading the book, you will have converted at least a thousand calories of ordered energy, in the form of food, into disordered energy, in the form of heat that you lose to the air around you by convection and sweat. This will increase the disorder of the universe by about twenty million million million million units - or about ten million million million times the increase in order in your brain - and that's if you remember everything in this book." ...

[Stephen W. Hawking, A brief history of time.]

Tuesday, January 27, 2009

Sunday, January 25, 2009

The Ghost in the Machine


The placebo effect, multiple personality disorder, and spontaneous remissions give us important clues about “the forces that operate in vis medicatrix naturae.” One of the things they teach is that to understand the nature of the body’s self-healing intelligence, we must understand the nature of the mind and the relationship between the mind and body. When belief, or what we might term ‘a stable state of knowing’ is involved, the mind appears unreasonably capable of shaping physiological outcomes. Yet, in trying to understand the mechanics that turn ‘knowing’ into healing, we run up against the limitations of the underlying theoretical model of allopathic medicine.

The relationship between mind and body is an age-old puzzle. For centuries, the practice of medicine has been influenced by a conceptual heritage from Descartes – the dualist notion of mind and body. Descartes viewed mind and body as two separate substances: res cogitans is a thinking substance which is unextended and indivisible, and res extensa denotes all the physical substances, which have extension in space, i.e. they can be measured and analysed, and which exist independently of res cogitans. In this model, the human body functions completely independently of the mind. The human body, wrote Descartes, is a machine mad up of bones, sinews, veins, blood and skin, and fitted together “in such a way that even if there were no mind in it, it would still carry out all the operations that … do not depend upon the command of the will, nor therefore, on the mind.”

Although he considered mind and body as two separate essences, Descartes did not deny their ability to interact. The translation of a mental impulse into a physiological action is so commonplace that we don’t even think about it. If you decide to reach for a glass of water, your arm extends automatically and your hand grips the glass. Yet, from the point of view of the dualist model, this is an inexplicable phenomenon. How can a non-physical substance influence a totally separate physical substance? Descartes proposed that mind and body interact through the small part of the brain known as the pineal gland, but he neglected to answer the question of how the non-physical mind acts on the pineal gland.

In spite of its obvious shortcomings, variations of the dualist notion of mind and body influenced the practice of medicine in the centuries after Descartes. Early Greek physicians emphasized that some patients’ complaints had their root in mental factors, but after Descartes the mind was denied a role in the disease process. Cartesian dualism influenced the biomedical model which is still commonly accepted today. According to this model, physical disorders are afflictions brought about by a disruption of physiological processes, which in turn may result from bacterial or viral infection, biochemical imbalances, injury, etc. The mind is not a contributing factor.

The dualist model of mind and body had too many deficiencies to remain unchallenged, and many alternative models have since been proposed. In the twentieth century, the scientific community has come to regard the mind as a product of the interaction of matter. In this materialist model, mental events are explained with reference to purely physical principles – a thought is the end result of the complex interaction of neurophysiological processes.

“[Y]our joys and your sorrows, your memories and your ambitions, your sense of personal identity and free will, are in fact no more than the behavior of a vast assembly of nerve cells and their associated molecules.” Says scientist Francis Crick, who shared a Nobel prize for discovering the structure of DNA. But if the mind is simply an outgrowth of physiological factors, again there is no apparent reason why it should play a role in the disease process. How could something pervasively influence that of which it is but a product?

Yet, the link between mental factors and the development of disease has been impossible to ignore. Researchers like Dr. Hans Selye, who introduced the stress concept, and Franz Alexander, who introduced the notion of psychosomatic disease, were among the early pioneers who tried to identify the mechanisms through which mental factors might lead to physiological disease. In the last 30 years, these attempts have been spearheaded by researchers in the multidisciplinary field of psychoneuroimmunology. This new field of research focuses on the interplay of psychosocial actions, brain processes, and the immune system.

Almost everywhere they have looked, researchers have found a smoking gun linking psychological factors with disease. If a randomly selected group of people are all exposed to the same infectious agent, such as a cold virus or streptococci bacteria, as few as one fifth of them may actually develop symptoms of infection. Heart disease appears to be more prevalent among individuals who have a high degree of anger, hostility, and cynicism. Depression, feelings of hopelessness, or repressed negative emotions may predispose a person to cancer. People with a pessimistic explanatory style, who tend to blame themselves for negative events and perceive the effects of these events as durable and pervasive, experience poorer health when they reach middle age. Social isolation appears to be especially marring; it is involved in the development of a whole range of diseases, including heart disease, cancer, depression, and arthritis.

In other words, environmental stressors are not the only factors that influence health. Internal ‘stress’, in the form of negative emotions or feelings of loneliness, plays a role as well. Simply being in good psychological health may provide the best protection of all against disease.

Argentina - ausencias























Juntas. La típica foto de los años 70 con las chicas en el barrio.


Sola. La sobreviviente junto a lo que ahora es una pura ausencia.





Cuatro hermanos.Gustavo,Guillermo,Diego y Eduardo Germano.





Grupo de amigos en 1971.Hoy faltan dos.





Raul y su hemano Manuel con sus novias en 1973.





Laura con sus padres en 1976.
















Ni olvido ni perdon....
no hay nada de que hablar amigos al ver las ausencias... Esta es nuestra historia Argentina, es parte de las heridas que aún duelen y que queremos tener presente para vislumbrar un sendero, una humanidad. La legión coartada renace en nosotros, los desaparecidos no lo son, reviven todo el tiempo, en cada pensamiento, acción y decisión que en coherencia con la nobleza de nuestros ideales 'Aparecen'... Contra todos los que aún buscan derrumbar los nobles sentimientos juveniles de una sociedad más justa, más igualitaria, más que nunca: NUNCA MÁS. Contra los que en nombre de algún convencimiento de poder oprimieron, oprimen, arrebataron, arrebatan, distorsionaron, distorsionan, opacaron, censuraron, amenazaron, hegemonizaron la palabra, demonizaron, mataron, toruraron... dejando en baja una cultura floreciente, con la ausencia, con el silencio, con la pérdida de hombres y mujeres, niños, que creían la libertad, concepto que asusta a los idiotas; contra ellos es el mensaje, cuando el alma se anime un poco a volar estarán atados en la perpetua condena de su humanidad perdida.
A los hermanos desaparecidos... ésta legión les madura su espíritu. Presentes ahora y siempre!