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Sunday, March 29, 2009

O Espaço ou a Solidão (11) Sem depois nem antes


Ele, que quis ser o continente de todas as forces em acção, define-se agora em desencontro no espaço – “Longe de mim em mim existo » – e em nada no tempo – « Oco dentro de mim sem depois nem antes ».

Aniquila-se Morre pela voz de Campos :

O horror súbito do entêrro que passa E tira a máscara a todas as esperanças. Ali … Ali vai a conclusão. Ali (…) Vai o nós!
(Campos, 522)

Morre pela voz dele mesmo porque o seu coração é um túmulo com epitáfio – “Fui eu a minha sepultura”.
Morre pela voz de falsa aceitação de Reis, aceitação de um destino inexorável :

Somos contos contando contos, nada.
(Reis, 413)

Dizer da insubsistência da vida pelas palavras de Pessoa-Reis, é o mesmo que fazer desaguar a existência no vácuo como o faz Pessoa-Campos – « Compreendi todo o vácuo da existência sem inteligência para o compreender » – ou inscrever os valores numa nova forma de espaço dado agora pela preposição « entre ». Esta palavra é muito do agrado do poeta e contrapõe-se ao outro tipo de indeterminação que ele objectiva, por exemplo, em palmares das Antilhas ou em « jardins maravilhosos nas ilhas in explicitias ». A diferença consiste, não na significação do conceito, mas unicamente em não haver qualquer forma de concretismo, desta vez.

Com este vocábulo, Pessoa leva-nos para uma esfera de irreal, deixa-nos agarrados à musicalidade do poema e a intuir o que será o « entre » sem lugar ; amargura-nos com jogos de palavras em que transparece a fragmentação e o aniquilamento da vida em três planos fundamentais : do sagrado, do social e do individual.

No plano do divino articula maliciosamente uma pergunta sem reposta, para chegar a uma negação – “Deus é um grande Intervalo / Mas entre quê e quê ?; no contacto de si com os outros, a mesma articulação de impossibilidade de convívio – « … esta vida / Que passo entre a impenetrabilidade física e psíquica / Da gente real com que vivo ! » No plano individual o uso da palavra tem uma carga de pessimismo ainda mais alta – o poeta não se sabe definir, só tem a percepção de que onde é não é e onde está não está. Não se apreende, existe separado, vive em paradoxo :

Entre o que vivo e a vida, Entre quem estou e sou, Durmo numa descida, Descida em que não vou.
(Cancioneiro, 158)

A personalidade que tem está « entre o corpo e a alma » (Campos 446) e a vida,

… é êste estar entre Êste quase, Êste poder ser que … Isto.
(Campos, 490)

que o transporta à angústia.

O « entre » é a irrealização, o vazio, o nada dos sonhos de Reis e do caixão de Campos; o “entre” é o local indefinido a concordar com a inexistância de coisas lindas nos mares de qualquer sul ou no ópio de qualquer oriente. É mais uma vez a solidão num mundo desarticulado em que as coisas são, independentemente umas das outras – « Grandes mágoas de todas as coisas serem bocados. »

De Bernardim a Camões, de Herculano a Soares de Passos, ou Nobre ou Sá-Carneiro a solidão é tema. Nomes diferentes e outros tantos modos de a sofrer. Pessoa, não é, portanto um solitário único. A transmissão do isolamento, seja ele ermitania ou abadondo por parte qo que lhe é exterior, é que é outra. Canta-a através de espaços abertos, fechados ou abstractos ; ajusta-se-lhe por contrato – « Minha mulher, a solidão – e sofre com ela na constante polémica interna que o mantém e que se extravasa em « Versos, versos, versos, versos, versos / Tantos versos … » para nos dizer que está « … só ; só como ninguém ainda esteve ».

[Maria da Glória Padrão, A Metáfora em Fernando Pessoa, 1981]

Wednesday, March 25, 2009

O Espaço ou a Solidão (10) O conteúdo da mala


Por carácter, Fernando Pessoa também está só. A sua maneira de ser leva-o a uma falta de jeito para a convivência e reforça-lhe a solidão. Voltado para si, « intro-absorvido », chegando ao exagero de afirmar : « Amo-me por ter escrito « Ah, poder ser tu, sendo eu ! / Ter a tua alegre inconsciência / E a consciência disso »(CACR) e, por outro lado, conhecendo-se como homem de excepção, afirma que est´só :

« … e, dos que de perto literariamente me cercam, você sabe bem que (por superiores que sejam como artistas) como ALMAS, propriamente não contam … »
« Em ninguém que me cerca eu encontro uma atitude para com a vida que BATA CERTO com a minha intima sensibilidade, com as minhas aspirações e ambições, com tudo quanto constitui o fundamental e o essencial do meu intimo ser espiritual. Econtro, sim, quem esteja de acordo com actividades literárias que são apenos dos arredores da minha sinceridade ». (CACR)

Como se estas características não bastassem para determinarem uma espécie de solidão, acrescente-se ainda um retraimento natural que toca as raias da vergonha, um horror de se dar a conhecer, um sentido do secreto altamente acentuado que o levam a manter a inviolabilidade do seu território.

Em vários momentos da sua poética se patenteia a repugnância em se mostrar e até o Campos sensacionista que diz ser um universo, o complexo das coisas criadas, experimentadas e pensadas, assim se define :

Trago dentro do meu coração, Como num cofre que não se pode fechar de cheio, Todos os lugares onde estive, Todos os portos a que cheguei …
(Campos)

O sentido de camuflado parece abandonar a imagem que o poeta usa mas nela está realmente implícita a intimidade. O que é, afinal, esse conjunto de lugares ? É a vivência do poeta ou o que ele quer que seja essa vivência. É o seu ser, a sua interioridade desdobrada para o exterior, uma pretensa extroversão que vai até a um grau infinito de tempo e espaço. Por insuficiência de cálculo, não podemos apreender esse ponto de chegada loge, escapa-se nos o intimo do poeta. « Nous n’arrivons jamais au fond du coffret. Comment mieux dire l’infinité de la dimension intime ? » (Gaston Bachelard, La poétique de l’espace).

Também não é casualmente que a palavra « mala » passa de acidente de expressão a pensamento constante de determinada trajectória do Pessoa-Campos. O conteúdo psíquico desse vocábulo é revelador do segredo que o poeta quer guardar só para si. A mala pessoal é um espaço que não se franqueia a qualquer um, um espaço de intimidade, um ponto de convergência de interioridade, um esconderijo que é a própria vida :

Tenho que arrumar a mala de ser. Tenho que existir a arrumar malas.
(Campos, 478)

O nosso trabablho de penetração cessa se quisermos saber qual o contéúdo do cofre ou da mala e assim ele salvaguarda o seu mundo, que cerca de grandes muros.

Cessa também se quisermos saber como é a casa de infância. Pessoa nunca a descreve, porque dar conhecimento dos seus recantos intimos seria um pouco violar-se a si próprio.

Inviolável e só está o poeta sempre, não na formulação dos problemas mas na acuidade com que percepciona e indaga o que lhe é dado pensar.
A sua condenação sabe ele qual é :

Estou prêso ao meu pensamento Como o vento prêso ao ar.
(Cancioneiro, 134)

A pensar, o poeta perde-se na “dolorosa instabilidade e incompreensibilidade / Deste impossivel universo » e no labirinto que é, soterrado pelo mistério que sobre ele ruiu.

Se vislumbra uma razão de viver, já que Deus lhe deu a missão de ser poeta – « Há um poeta em mim que Deus me disse » - acabará por descobrir afinal que « há sempre escuro dentro dele ».

Se quer percepcionar qualquer reposta aos seus anseios e às suas exigências, todas as portas se lhe abrem para a dúvida, para o mistério, para a inconsequência de si próprio, para a morte. Por vezes nem se chegam a abrir – « Fecharam-me todas as portas abstractas e necessarias”.

Se quer aderir à “alucinação extraordinariamente nítida » que é a realidade, é vítima do processo de realização que para si escolhe :

… eu, em cuja alma se reflectem As forças tôdas do universo, (…) Eu sofro ser eu através disto tudo como ter sêde sem ser de água.
(Campos, 521)

[Maria da Glória Padrão, A Metáfora em Fernando Pessoa, 1981]

Friday, March 20, 2009

O Espaço ou a Solidão (9) ilusão e palco


A ignorância é, como vimos, uma das verdades que o poeta possui. Outra é a ilusão. O duplo jogo da verdade que observa na vida perturba-o e vincula mais fortemente a sua crença no erro do existente.

« Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado um com o outro. Cada um me contou a narrativa de por que se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos tinham razão. Ambos tinham tôda a razão. Não era que um via uma coisa e outro outra, ou que um via um lado das coisas e outro um lado diferente. Não: cada um via as coisas exactamente como se haviam passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro, mas cada um via uma coisa diferente, e cada um, portanto, tinha razão” (Obra Poética).

Que concluir daqui?

« Tudo é ilusão.
A ilusão do pensamento, a do sentimento, a da vontade. Tudo é criação é ilusão.
Criar é mentir.
Para pensar o não-ser criámo-lo, passa a ser uma coisa.
Todos os que pensam ocultistamente criam em absoluto todo um sistema do universo, que fica sendo real. Ainda que se contradigam: há vários sistemas do universo, todos eles reais.
Nós próprios, porque existimos, somos criações também, portanto ilusões. Mas somos criações de quem ? Do Deus que nós próprios criámos ? Como se o criámos nós, e lhe somos portanto anteriores ? Isso é supondo real o tempo, que é outra criação nossa. Tudo é um amontoado de ilusões.
Aquilo que chamamos verdade é aquilo a que também chamamos o ser. Verdadeiro é o que é. Mas o que é, é ilusão. Por isso é verdade é a ilusão, é uma ilusão » (Textos Filosóficos)

Esta crença é vulgar num momento histórico em que os homens começam a compreender a fragilidade de ideologias éticas e morais. Fernando Pessoa é mais um nome a dar forma ao vazio e à instabilidade das consciências abaladas. É igual a voz de Pirandello, homem do mesmo momento histórico:

“… se tornar a pensar em todas aquelas ilusões que, agora, já não lhe « parecem » o que éeram » naquele tempo para si, não sente faltar-lhe já não digo estas tábuas do palco – mas o próprio chão debaixo dos pés? E não chegará à conclusão de que, da mesma maneira, toda a sua realidade de hoje, tal como é, está condenada a parecer-lhe ilusão amanhã ? » (Luigi Pirandello, Seis personagens em busca de autor)

A facilidade com que sobre isto pensa e com que se entrega ao fingimento de estados de alma, pretendendo que todos são reais, é um derivativo da sua convicção no engano, e portanto, da descrença na estabilidade do ser e do pensar. Como corolário da tese da ilusão, as imagens cénicas do poeta : reduz o mundo ao espaço de um palco onde nos vamos exibindo e onde cada um de nós é o fantoche de si próprio.

« La vérité sur la scène, c’est tout ce en quoi l’acteur peut croire avec sincérité » (C. Stanislavsky, La formation de l’acteur) e se a verdade, na cena que Pessoa ergue ou vê erguida, é uma verdade feita de mimos, bobos, palhaços, saltimbancos e máscaras, é nessa que ele acredita e, consequentemente, terá de conceber o mundo com a falácia que o teatro empresta à vida. « A nossa vida é palco e confusão », é um conjunto desagregado e nem os deuses, nem a tradição têm a coesão que os homens lhe emprestam. Limitada ao espaço de um palco ou de uma feira ; limitada ao circo do correr dos dias, o homem desempenha um papel, no caso do poeta conscientemente, na generalidade sem conhecimento – o que o poeta desejaria !

« Somos todos palhaços estrangeiros », « actores de convenções e poses determinadas », na cinematografia em que nos encontramos empenhados « A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos » ; o nosso símbolo é uma última esperança e uma última ilusão que « Não significam nada / Mimos e bobos são ».

O jogo teatral não é só drama do exterior ou da vida dos outros. O poeta vive-o dentro de si. Confessa-o a desenrolar-se no quotidiano – « … tenho passado com razoável calma pela ilusão sucessiva dos dias” (CACR) – confessa-o a desnerolar-se no seu próprio coração – « Meu coração é um enorme estrado » – ou na sua alma a que falta sempre qualquer coisa como se se tratasse de « um palco deserto », sem personagens, sem movimento, sem princípio vital. Sustentado por ilusões, quando a representação acaba, finda como ela tudo o que foi sonho – e foi a vida toda…

A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.
(Cancioneiro)

Pessoa e Campos « figuram as coisas e a vida, a própria existência e as sensações, pelas metáforas de comédia, tragédia, sendo elas todas manifestações de realidades aparentes e ilusórias que disfarçam a realidade absoluta do universo e da alma humana. O fingimento torna-se a pose habitual do homem, porque a capacidade de conhecer-se é restrita, se não fora de alcance. A alma, objectivo do conhecimento, traz camada sobre camada de máscaras inseparáveis. Só um homem excepcional como Fausto conseguiu largar uma vez todas as máscaras, viu o fundo da alma e ficou horrorizado pela verdade descoberta » (Rainer Hess, As metáforas cùenicas na obra de Fernando Pessoa) – « Bebi a taça … do pensamento / Até ao fim ; reconhecia-a pois / Vazia, e achei horror ».

[Maria da Glória Padrão, A Metáfora em Fernando Pessoa, 1981]

O Espaço ou a Solidão (8) pela Floresta dos Pavores


Outras palavras do domínio do espaço vão ser novamente expressão da abulia de Pessoa : floresta, deserto ou abismo são uma nova justificação de inactividade.

Estas imagens, se são comuns às imediatamente anteriores por não serem obsessivas, logo se diferenciam delas porque superlativiam e alargam o desconhecimento do poeta e trazem uma definição dos conceitos e das realidades constitutivos do mundo que o homem normalmente surpreende.

Mais uma vez as imagens em que o poeta se apoia o vão acusar (« … par notre premier choix, l’objet nous désigne plus que nous ne le désignos », Gaston Bachelard, La psychanalyse du feu). Definindo o universo como uma floresta – « … na vasta selva virgem / Do mundo inumerável” – revela-se-nos mergulhando numa realidade confusa com uma transcendência que escapa à sua penetração. Perante essa floresta que não é descrita,sente-se uma grandeza e uma profundidade escondidas, « on se sent devant une impression essentielle »(G. Bachelard, La poétique de l’espace). Pessoa sente a grandeza imprescrutável também, de um outro mundo da sua visão, ironicamente mais real que o nosso, mas igualmente desconhecido : « … uma floresta de escarnados braços / Inutilmente erguidos para o céu ». Na viagem da vida, « Viagem essa, meu querido Amigo, que é entre almas e estrelas, pela Floresta dos Pavores” (CACR) ele não sabe para que lado se virar no emaranhado de troncos e ramos.

Esta desorientação é a mesma do Pessoa colocado na aridez e inutilidade do deserto, sem bússola – nova definição da vida e do que ela contém:

Grandes são os desertos e tudo é deserto.
(…) Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes …
(Campos, 478)

A confusão da floresta e a falta de rumo no meio do deserto, continuam-se no abismo, símbolo, desta vez, um pouco obsidiante, local onde o poeta a todo o momento se despenha.

O abismo é tudo: céu e mar, vida e morte, alma e pensamento. Na « Mensagem », o céu abre o abismo para receber Vasco da Gama ; Do abismo que está debaixo do mar ergue-se a vontade mítica de Portugal. O poeta está situado num mundo abismal, porque desconhecido e todas as realidades materiais ou imateriais vão encontrar lugar nesse espaço tremendo e indefinido.

Unicamente no mundo de Caeiro não há acidentes orográficos que mereçam tal nome. Ele não tem filosofia; o seu pensamento nunca dá saltos em despenhadeiros ; é o igual da natureza que só guarda rebanhos.

Para Reis, o abismo é a alma e a morte. Para Campos, é toda a existância :

Perante esta única realidade terrível – a de haver uma realidade,
(…) Perante êste abismo de existir um abismo,
Êste abismo de a existência de tudo ser um abismo,
Ser um abismo por simplesmente ser,
Por poder ser,
Por haver ser!
(Campos, 515)

O destino do poeta aparece-lhe na alma como um precipício; todos somos irmãos gémeos de tudo por tudo ser abismo e a insondabilidade mantém-se ainda entre o que o poeta sonha e a realidade:

… êsse indistinto
Abismo entre o meu sonho e o meu porvir …
(Cancioneiro, 73.12)

O fosso porfundo já não é entre o fora e o dentro. É só lá dentro :

Paro à beira de mim e me debruço …
Abismo …
(Pessoa, 545.1.XVII)

Fundem-se os dos agora, interior e exterior no mesmo abraço de desconhecido e de tragédia:

E o mistério e horror do mundo
Silentemente recebo
No meu absimo profundo.
(pessoa, 545.1. XVIII)

Soa-nos a desgraça a voz do poeta e nem doutro modo podia soar. Desconhecido ele, num mundo desconhecido, tendo como lugar do fim o “Abismo onde não há mudança”, os gritos que lança para ser arrancado “do solo de angústia e de inutilidade / Onde vicejo” não fazem mais do que lançá-lo cada vez mais profundamente no abismo de si e da vida, no nada que é tudo.Na mistura de paradoxos que se seguem, Pessoa dá-nos conta de que o que realmente existe é esse nada que situa na floresta, no deserto ou no fosso do deconhecido:

“Nós sabíamos ali, por uma intuição que por certo não tinhamos, que êste dolorido mundo onde seríamos dois, se existia, era para além da linha externa onde as montanhas são hábitos de formas, e para além dessa não havia nada”, o nada para onde se abrem todas as portas “por onde vejo sempre a mesma escuridão” (Pessoa, 545.2.XVIII).

[Maria da Glória Padrão, A Metáfora em Fernando Pessoa, 1981]

Friday, February 20, 2009

O Espaço ou a Solidão (7) à beira da estrada


É talvez demasiado fácil afirmar que Pessoa é um arredado da felicidade porque não quer partir para a acção, uma vez que se apercebe da falência de todos os esforços para atingir a verdade. Qual verdade ? O poeta ignora-a. Pessoalmente, não se conhece. – « Sabes quem sou ? Eu não sei » – ou só se apreende deconexamente como uma colecção de « tempos seres ». O sentido do mundo exterior e objectivo também se lhe escapa. Ele é o ignorante dos princípios que justificam a existência e a ignorância é um ingrediente da sua solidão.

O desconhecimento dele e da vida traduz-se em imagens que nem são pessoais nem obsessivas mas que, no entanto, citaremos.

Estrada e caminho (que aparecem com mais frequência nas poesias não revistas pelo autor) vão ter a dupla significação de realização pessoal e de caminho que se atravessa. Em ambos os vocábulos está implícita uma ideia de passagem.

A vida terrena, na crença ocultista de certas poesias e cartas, não é mais do que uma transitoriedade para um além. A vida é « uma viagem que os outros fazem para se distrair » e que o poeta acha « grave » e « cheia de termos de pensar no seu fim, de reflectir no que diremos ao Desconhecido para cuja casa a nossa inconsciência guia os nossos passos .. » (CACR) A morte é o que lhe permite entrar no « silência da grandeza de Deus », é uma espécie de limiar ; « a morte é a curva da estrada / Morrer é só não ser visto » (Cancioneiro). A estrada é o espaço de tempo percorrido entre o nascer e o morrer.

O devir constante dos estados de alma e, portanto, o sentido perecivel de todas as graduações de pensamento ou sentimento, levam Pessoa a usar, também, as imagens de estrada e caminho, sítios de passagem de uma vivência para outra, vivências que de minuto a minuto são diversas.

Na profusão e na complicação de todos os processos de ser e de pensar, o poeta não sabe que caminho tomar no « entroncamento / chamado o mundo ». Eternamente no « bifurcar dos caminhos », tem a attitude de quem não se responsabiliza porque nada escolhe. Admite que há sempre um processo a seguir e que todos os modos de construção de vida se encontram em potência nele :

Ah ! os caminhos estão todos em mim.
Qualquer distância ou direcção, ou fim

Pertence-me, sou eu.

[Inéd., 560]

Mas, não sabendo por onde deve trilhar – porque não opta – numa atitude que lhé é bem familiar, senta-se ao lado da vida, cansado dela própria.

É a constante conduta do homem sem vontade : pretende actualizar uma omnisciência e essa percepção abstracta toma-a ele como justificação da abulia, quando, afinal, os « caminhos » ou o « entroncamento » não passam de expressões dessa mesma abulia.

No Chevrolet emprestado, a caminho de Sintra onde quer chegar mas sabendo antecipadamente que, quando chegar, terá pena de ter deixado Lisboa, numa permanente inquietação de quem sabe o que não quer e de quem não sabe o que quer, assim o poeta é sempre « na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida … »

Na sua concentração excessiva descobre-se no caminho separado nos desejos e em tudo. Fluindo hoje diferentemente do que foi ontem, na impossibilidade de apreensão de uma unidade – « No meu próprio caminho me atravesso / Não conheço quem fui no que hoje sou » (Cancioneiro) – nunca Pessoa se encontra com Pessoa nas repostas às perguntas que qualquer um deles formula e a que nenhum responde. O desfasamento com o mundo que o cerca começa por ser um desfasamento interior de alguém que segue « por dois caminhos par a par » O seu processo gnoseológico só capta bocados na « estrada da (sua) dissonância ». E também apreende o legado da vida – « O esquecimento temporário, a estrada / Por engano tomada / O meditar na ponte e na incerteza » (Inéd.) – e tudo o que faz dele um homem torturado : a falta de unidade, o cansaço sinónimo de abulia – « Sento-me à beira da estrada / Cansado já no caminho » – , o aniquilamento – « E ficar morto na erma estrada / Que vai da alma ao coração » –, o desconhecimento de tudo – « Eu também sou um cego / Cantando na estrada » –, a ilusão – « Se ver é enganar-me / Pensar um descaminho / Não sei. Deus os quis dar-me / Por verdade e caminho » – e a solidão :

Que ao menos na estrada me sorria alguém
Ainda que por acaso.

[Inéd., 605]

[Maria da Glória Padrão, A Metáfora em Fernando Pessoa, 1981]

Thursday, February 12, 2009

Dom Quixote


Quebram-se os elos,
da banalidade,
dos valores,
desta vida edificante,
perdem-se os sentidos,
... vulgaridade,
o que fez de mim,
este ser errante?
É que neste mundo,
pleno de vaidade
tropeço a toda a hora
na mentira,
no terror,
na hipócrisia
e no falso amor,
que é feito da paixão
e da verdade?
Serei eu um D.Quixote,
sempre a lutar,
contra dragões,
montros e moinhos,
sem um escudeiro para me ajudar?
De tanto batalhar,
contra esta gente,
perdi as minhas lanças,
a minha espada,
fiquei só,
com a minha armadura reluzente!

Wednesday, February 11, 2009

O Espaço ou a Solidão (6) arrumar a mala


Se o poeta está só por se ter afastado do mundo de ventura que imagina, está só, também, porque rompe de viseira com a vida activa.
Possuidor de uma inteligência demasiado lucida e analítica, possuidor de uma vontade adormecida e vencida por essa inteligência que a aniquila, Pessoa será o responsável pelo afastamente da felicidade que chora ou que deseja. Mas, neste desejo, nunca está presente um autêntico movimento de alma porque o poeta tem receio da vida activa. É o eterno abúlico hiperconsciente da sua abulia pois ele sabe que a motivação última de uma opção nunca conduz ao paraíso nem a nenhuma finalidade que seja satisfatória. Ainda como abúlico, está consciente de todas as possibilidades de perda de consciência no infinito e não opta … porque é abúlico. Em toda a poesia se patenteia amplamente este lema do nunca partir para a acção e mais uma vez Pessoa se vai servir de imagens de espaço – mas agora de um espaço circunscrito a pequenas superfícies e até fechado – para nos comunicar o que não quer fazer.

Não são poucos os poemas em que Pessoa-Campos nos dá conta do seu cansaço e da sua abulia ; Reis e Caeiro também vão deixar a descoberto o mesmo princípio apesar da tentativa de disfarce. Disfarçado em aceitação em Reis e em simplicidade em Caeiro, o ideal da inacção é uma constante da obra do poeta. Pessoa fecha os olhos e entrega-se sem condições ao dissolver da personalidade.

A vida fica-lhe sempre dividida em antes e depois do instante em que manifesta o desejo de se lançar à conquista seja do que for, antes e depois que se equacionam numa igualdade cuja solução é estar sempre com « a mala aberta esperando a arrumação adiada » (Campos, 478).

A mala é o simbolo da arrancada para a viagem da vida ; é a condição indispensável sem a qual não se pode partir ; é a desculpa de Pessoa para não partir ; é a confissão do abandono total de todo o esforço que vem pôr a nu a verdade do poeta. Ele tem desejo de partir mas não tem vontade e assiste-se à oscilação do « ter de ir » arrumar a mala e do « ir definitivamente » fazê-lo, sem que, no entanto, ela fique de facto arrumada. Ele, a mala-homem que ele é, nunca estabeleceu uma ordem, fosse qual fosse a distribuição dos pensamentos ou das volições dentro do espaço de si próprio, a não sera ordem da desordem e da perturbação. Lutando entre as unidades finito-infinito, sente-lhes a antinomia, mergulha no tempo, cansa-se, reduz a vida ao absurdo e nunca há-de arrumar seja o que for.

No entanto, o retardar constante a que submete a acção da sua vida não deixa de o perturbar e procura convencer-se, à custa de repetições, que os adiamentos sucessivos a que se vai entregando são inaceitáveis. Insiste sempre :

Mas tenho que arrumar a mala,
Tenho por força que arrumar a mala,

A mala.

[Campos, 478]

A intenção de ordenação da vida atormenta-o ao ponto de o abalar profundamente : « O facto é que neste momento atravesso um período de crise da minha vida. Preocupa-me quotidianamente a necessidade de dar ao conjunto da minha orientação, tanto intelectual como « existente na vida », uma linha metódica e lógica. Quero disciplinar a minha vida (e, consequentemente, a minha obra) como a um estado anárquico, anárquico pelo próprio excesso de « forças vivas » em acção, conflito e evolução, interconexa e divergente » (CACR). Pessoa até chega ao ponto de pretender uma classificação e sistematização de emoções – « Metam-me em gavetas essas emoções » (Campos, 443) – e no seu desejo de arrumação ergue-se numa vontade que se adivinha não passar unicamente do pensamento e do papel :

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.

Arre, heide arrumá-la e fechá-la ;

Heide vê-la levar de aqui,

Heide existir independemente dela.
[Campos, 478]

Porque há-de existir sempre desligado de si próprio. Há-de viver sempre « sentado sobre o canto das camisas empilhadas », numa comodidade de nunca pensar em partir porque assim nada haverá a ordenar :

Na véspera de não partir nunca
Ao menos não há que arrumar malas

(…) Não há que fazer nada

Na véspera de não partir nunca.

[Campos, 495]

São de Campos estes arremedos de vontade cansada. Pessoa já não se mascara por trás de nehum imperativo ; antes, coerentemente, numa tristeza-de-braços-caídos :

Desfaze a mala feita para a partida !
Chegaste a ousar a mala ?
[Inédito, 713]

Para quê ousá-la ? Fernando Pessoa não ousa nada. Instala-se numa imobilidade sinónima de indiferença, senta-se : « Custa-me levantar-me da cadeira onde não dei por me ter sentado » (Campos, 455). Irmão gémeo de Sá-Carneiro que queria ficar na cama até criar bolor, suplica : « Deixe-me estar aqui, nesta cadeira / Até virem meter-me no caixão » (Campos, 439) no entorpecimento permanente de quem não quer escolher nem actuar.

Noite sempre p’lo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho – que amor! …

Sim : ficar sempre na cama, nunda mexer, criar bolor –

P’lo menos era o sossego completo … História ! era o melhor das vidas …

[Mario de Sa-Carneiro, Poesias]

Como já tivera um vago desejo de arrumar malas, tem agora, também uma ânsia longínqua de fazer qualquer coisa – « … poder levantar-me desta poltrona … » (Campos, 466) – mas qualquer anseio do poeta é tão falho de vontade, que, melancolicamente, ele se despe de características humanas e se coisifica, negando-se o valor superior a qualquer objecto perdido em qualquer lado, onde qualquer pessoa, por qualquer acaso, o entronre. É o esmagamento de todo o processo volitivo:

(…) a impressão, um pouco inconseqüente,
(…) De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,

Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ia sentar em cima.
[Campos, 481]

A melancolia de frustrado que ressalta destes versos não constitui motivo para ele não deixar de se instalar numa cadeira. Vai construindo, verso a verso, a sua mágoa de abúlico e lembra dolorosamente «a esteira em que a sua vida jaz » (Inédito, 556). Pessoa falha por um afastamento de movimentos volitivos, anestesiando-se com o fazer nada da cadeira da vontade em que se sentou. A apatia leva-o a aderir à afirmação cómoda mas trágica da sua morte.Mala, gaveta, cadeira ou poltrona – nada mais que expressões de abulia do homem que também ficou solitário por inactividade.

[Maria da Glória Padrão, A Metáfora em Fernando Pessoa, 1981]

Tuesday, February 10, 2009

O Espaço ou a Solidão (5) a felicidade negativa


A sua vida é razão de infelicidade – « A vida ali deve ser feliz, só porque não é minha » (Campos, 463) – e o lugar onde uma ventura qualquer se possa encontrar está num jardim que nunca lhe pertence – « Gozarei só pela aragem / As flores de outro jardim » (Inéd., 656) – no espaço de uma quinta a que se junta a sonoridade agradável da água corrente – « Nos tanques da quinta de outrém / É que gorgoleja bem » (Inéd., 710) – no oásis aue aparece no deserto que nunca é o dele – « Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado » (Campos, 478) – na extensão que se situa para além do muro, o sinal da proibição que lhe faz ter a consciência do que lhe é vedado. Para além do muro, a noite de S. João no quintal dos outros, a paz do «olival alheio », tudo o que ele quer o pensa.

Para aquém do muro, os desejos da cortina espessa das montanhas o lado desagradável da vida – « Do lado de cá de todos os montes, é que a vida é sempre feia » (Pessoa, 544) – e só do lado de lá « o algures onde os poentes são », fundindo-se essa terra desejada com a terra perdida – « Eu fui feliz para além de montes outrora … » (Pessoa, 544).

Pessoa, sempre num estado de insatisfação por deslocação de qualquer espaço ou movimento físico ou psíquico que lhe permitam um pouco de conforto, sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de um muro sem porta, sempre o tímido, o da filosofia solitária a construir e a remover mundos na sua « trapeira de falhado », na mansarda donde não sairá nunca, tem a éintuição esguia de outras terras », entrevê em longe e bruma o paraíso por achar, a ilha edénica de um mar do Pacífico onde « a vida sabe a amor e a sul » (Carta a Armando Côrtes-Rodrigues CACR). É uma espécie de percepção duvidosa que lhe põe a vida « feita em trapos » :

Não sei se é sonho, se realidade,
Se uma mistura de sonho e vida,
Aquela terra de suavidade
Que na ilha extrena do sul se olvida.
É a que ansiamos. Ali, ali
A vida é jovem e o amor sorri.

[Cancioneiro, 150]

A « Ilha longínqua, aquela que V. e eu sei e nenhum de nós sabe » (CACR) tem o valor de um símbolo. O poeta não a objectiva, somente a situa algures, nos mares do Pacífico e perde-a nima imensidade que por ser indefinida é infinita. É que o poeta dista indefinidamente de si próprio. No diálogo constante que trava com a alma, confessa a cisão de ele com ele : « … nunca somos um só. Aquilo que eu não te digo, apesar de habitarmos juntos este palácio e juntos pensarmos neste jardim. Segredo-o a mim quando estou mais só e nem ergo a voz, para que me não ouça não sei quem que me não pode ouvir » (Textos Filosóficos). Não se apreende na sua essencialidade, não se unifica, « a incompatibilidade é sentida por ele, dentro dele » (CACR) e como a ilha está inscrita nele nunca a ela aportará :

Não é com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou não.
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no coração.
É em nós que é tudo. É ali, ali,
Que a vida é jovem e o amor sorri.

[Cancioneiro, 150]

É neste momento que se confundem os dois mundos, interior e exterior, e que se mede a tragédia de quem se procura e não se encontra.

Se bem que Ricardo Reis secunde a certeza de Pessoa ortónimo – « Façamos de nós mesmos o retiro / Onde esconder-nos, tímidos do insulto / Do tumulto do mundo » (Reis, 408) – é dentro de si que começa o desencontro porque ele não sabe « quando levanta um braço, porque coisas do além levanta esse braço » (Textos Filosóficos).

Furtando-se-lhe dolorosamente o conhecimento do ser e negando-se-lhe, assim, a felicidade, o poeta fica irremediavelmente solitário no espaço enorme da sua insuficiência, nada mais pedindo à vida « do que ser o seu vizinho » (Cancioneiro, 187).

[Maria da Glória Padrão, A Metáfora em Fernando Pessoa, 1981]

Monday, February 9, 2009

O Espaço ou a Solidão (4) o Lar perdido


Pessoa perdeu a casa da infância, perdeu o paraíso do nõa pensar e da inconsciência. Mas a casa natal está fisicamente inscrita nele porque agora ele é o enverhecimento e a ruína dessa casa :

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes …

O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),

O que eu sou hoje é terem vendido a casa,

É terem morrido todos …

[Campos, 473]

Todos os que povoam esse lar, espaço, onde ele integra as recordações agradáveis e os sonhos. É nessa casa da infância que « s’établissent les valeurs de songe, dernières valeurs qui demeurent quand la maison n’est plus. » (Gaston Bachelard, La poétique de l’espace) ; nessa casa « em que festejavam o dia dos seus anos ».:

A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas – doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado

[Campos, 473]

Lhe chegam à memória no momento da raiva que tem de si próprio por não ter sabido conservar esse passado. Raiva porque a casa chorada era o canto do mundo onde ele podia agora ser feliz – sempre uma possível realização dentro de uma coisa que não existe. Esse lar é o pretexto para os desejos dos seus sonhos de paz e uma região longinqua, uma região-recordação que tem o valor da zona de protecção de que o poeta a cada momento precisa. Ele está a habitá-la em sonho e a casa que nos mostra é a fixação de uma infância que subitamente parou para deixar ao poeta só um pouco de loucura (« Quand, dans la nouvelle maison, reviennent les souvenirs des anciennes demeures, nous allons au pays de l’Enfance Immobile, immobile comme l’Immémorial » G. Bachelard, id.).:

Pobre velha casa da minha infância perdida !

Quem te diria que eu me desacolhesse tanto !

Que é do teu menino ? Está maluco.

(…) Quem de quem fui ? Está maluco. Hoje é quem eu sou.
[Campos, 490]

Na posse da loucura que traz « exactamente na cabeça », ele será sempre o arredado, em desacerto permanente com ele, com os outros e com a vida que é um espaço fechado, só definível por paradoxos e inexactidões :

Sou naquele salão como qualquer pessoa

Mas o sobrado é côncavo e as portas não acertam

A tristeza das bandeiras crucificadas nos entrevãos das portas

É uma tristeza feita de silêncio desnivelada

Pelas janelas reticuladas entra a luz quando é dia

Que entorpece os vidros das bandeiras e recolhe a recontos montões de negrume

Correm às vezes frios ventosos pelos extensos corredores

Mas há cheiro a vernizes velhos e estalados nos recantos dos salões

E tudo é dolorido neste solar de verlharias.

[Pacheco, 542]

Nesta sucessão de imagens exemplificativas, há uma visão da vida limitada que o avisado Ricardo Reis subscreve :

(…) Usaremos a existência

Como a vila que os deuses nos concedem.

[Reis, 325]

Mesmo querendo usufruir, epicuristicamente, do tempo que lhe é dado para passar neste planeta, ele fecha-o num espaço, que, se bem que agradável, não deixa de fazer ressaltar a existência como uma prisão : a vila tem paredes e muros e grades …
Pensando e vivendo à sombra da nostalgia de um paraós perdido, não poderá o poeta voltar a encontrá-lo ? Não, e esta é uma trágica cláusula do seu contrato de inadaptado. Proscrito de um deus que lhe deu uma vida de que depois se esqueceu, a felicidade só poderá ser para os outros, por quem, aliás, nutre uma espécie de empatia. A contemplação dos homens oferece-lhe moldes concretos em que se vasa a sua sensibilidade emotiva ao pensar no que possui ou não possui. Estabelece-se uma correspondência entre o poeta e os seus semelhantes – estes são a projecçãõ, muitas vezes, mesmo, um complemento de dramatismo da consciência do poeta.
A felicidade, dizia, não é para ele. Se a vislumbra em sonho, logo o seu eu pensante e consciente, interferindo no processo onírico, a destrói. « Coração oposto ao mundo » do lar que nunca terá, a ventura só existe para os outros, onde ele não está, na casa onde ele não mora – sempre o sentimento em negativo daquilo que não tem –

Na casa defronte de mim e dos meus sonhos,
Que felicidade há sempre !

[Campos, 491]

Esta oposição repete-se constantemente no poeta ortónimo e heterónimo e se bem que a felicidade dos outros resida mais no que ele lhe atribui em pensamento do que na ventura real deles, a repetição marca a obsessão e a convicção de que para ele nada pode existir de agradável. Ele é o eterno divorciado da realidade feliz : « So tenho por consolação / Que os olhos se me vão acostumando / À escuridão” (Inéd., 553) .

« Outros terão / Um lar … » (Inéd., 553) qualquer processo de construção de vida « defronte » da abulia e do tédio do poeta. Ele instala-se na sua solidão e chega ao paradoxo de afirmar que « Até amaria o lar, desde que o não tivesse » (Campos, 476) – confissão de adesão a uma felicidade negativa.

[Maria da Glória Padrão, A Metáfora em Fernando Pessoa, 1981]

Sunday, February 8, 2009

O Espaço ou a Solidão (3) o Paraíso perdido


Pessoa está só por se ter afastado de um mundo de ventura a que não conseguirá novamente voltar.

A presentificação do paraíso que perdeu desdobra-se em dois grupos de imagens: o conjunto dos espaços que recordam um mundo feliz e um outro que objectiva a limitação de um presente triste.

Depois de perdido o paraíso da alma, o poeta sente-se deslocado e situado num mundo que não é para ele. Foi « amado em efígie num país para além dos sonhos » e agora confessa-se « desterrado da Pátria antiquíssima da minha Crença ». Na passividade da aceitação por ele programada, mede-se como o estrangeiro que é, como « deidade exilada », ente « exilado das supernas luzes ». Deportado, por imposição dos deuses, arrasta, como condenação, o simples desejo de felicidade a que chama erro :Aqui, neste misérrimo destêrro

Onde nem desterrado estou, habito,

Fiel, sem que queira, àquele antigo êrro

Pelo qual sou proscrito

[Reis, 419]

Também Pessoa autónimo é um deportado do sonho, da esperança, do amor e da glória, “conjunto absurdo” que ele entrevê sempre onde quer que passe. Na prisão em que se acha não é mais do que o exilado de uma outra vida qua pensa voltar a encontrar :

Aqui onde se espera

(…) Isso que outrora era,

(…) Aqui, aqui estarei

(…) Como no exilio um rei.

[Cancioneiro]

E Álvaro de Campos, “patriota transitório duma mesma pátria incerta » que todos nós integramos, não deixa de se sentir estrangeiro num mundo de estrangeiros :

O florir do encontro casual

Dos que hão sempre de ficar estranhos …

O único olhar sem interêsse recebido no acaso

Da estrangeira rápida …

[Campos, 454]

« Estrangeiro aqui como em toda a parte » (Campos), viajando muitas vezes com a mesma passageira num comboio suburbano mas cruzando-se somente com ela, vendo a rua « com uma nitidez absoluta » – lojas, passeios, carros que passam, « entes vivos vestidos que se cruzam », « cães que também existem » – e pesando-lhe isto tudo « como uma codenação ao degredo » afirma-se crente numa outra vida que ressalto no idealismo platónico e ocultista da obra lírica e épica de Pessoa ortónimo.

Lembra-se a attitude paralela em vivência e expressão de um outro deslocado que não foi alheio a Fernando Pessoa :

"À une passante

La rue assourdissante autour de moi hurlait.

Longue, mince, en grand deuil majestueuse,

Une femme passa, d’une main fastueuse

Soulevant, balançant le feston et l’ourlet ;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.

Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,

Dans son œil, ciel livide où germe l’ouragan,

La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair … puis la nuit ! – Fugitive beauté

Dont le regard m’a fait soudainement renaître

Ne te verrai-je plus que dans l’éternité ?

Ailleurs, bien loin d’ici ! trop tard ! jamais peut-être !

Car j’ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,

O toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais !"

[Charles Baudelaire, Les fleurs du mal]

A simbologia mítica de que a Excalibr, o Sul sidério, Galaaz, a Rosa, o Templo, o Pai Rosaeacruz, para só citar alguns exemplos, são elementos constitutivos, é uma das técnicas de recuperação do paraíso da alma, usadas por Pessoa.

A essa simbologia e com a mesma finalidade, vem acrescentar-se o ouro, a cinza do poente, a Hora que « sabe a ter sido », o « porto infinito » da poesia paùlista ou ainda a persistência com que quase abusa das palavra « antigo », « antiquíssimos » e « longinquo ».

As referencias feitas acima servem-nos como o trampolim para estabelecer o contraste entre o mundo de um além de « antes de tempo e espaço e vida e ser » e o mundo do concreto em que o poeta vive. Para a definição do seu momento actual concorrem as imagens de espaço : desterro, exílio, prisão, cela – « Todo o universo é uma cela, e o estar preso não tem que ver com o tamanho da cela ». De facto, o tamanho varia : tanto pode ser a vastidão que comporta os astros – « Vastidão vã que finge de infinito / Como se o infinito se pudesse ver ! » – como as reduzidas e aviltantes dimensões duma aldeola (Campos) ou as de um « largo onde ladram cães ». E levantada até à tragédia a voz de Campos, numa alternância de concreto e abstracto, grita qual era a mais torturante prisão para o poeta :

Cárcere do Ser, não há libertação de ti ?

Cárcere de pensar, não ha libertação de ti ?

A obsessão do paraíso perdido vai colocar-nos no espaço do lar também perdido.

[Maria da Glória Padrão, A Metáfora em Fernando Pessoa, 1981]

Saturday, February 7, 2009

O Espaço ou a Solidão (2) as Ilhas do mar do sul


As ilhas do mar do sul não ficam em qualquer ponto do Pacifico com longitude e latitude determinadas; o oriente não é o Oriente; “todos os portos a que cheguei” não existem em nenhuma costa; Dar-es-Salaam ou Madagascar não são lugares geográficos; os jardins com flores ou com ervas nunca viram o luz do sol; a colina do guardador de rebanhos é um acidente orográfico feito de conceito sobre conceito; a cidade persa dos jogadores de xadrez existiu sem cidadãos e sem jurisdição; a estrada que ele percorreu ainda está virgem de passos humanos. Tudo isto são lugares imprecisos que se perdem num perto ou num longe mas que rimam com vivência essencial intima. Um e outro mundo – o do espaço imaginado e o do espaço experimentado – se encorajam no seu crescimento, adquirem uma expansão cada vez maior e explicam-se mutuamente. Partindo do que pensa e sente e buscando apoio em suportes objectivos, o poeta metaforiza permanentemente e essa metaforização é fonte constante de repostas ou de caminhos para a nossa indagação.

Pessoa projecta-se todo na vastidão exterior.

O heterónimo Caeiro é o homem da terra, é o guardador de rebanhos que quando se estende ao comprido na erva, sente que se deita na realidade. O fim último da metafísica do Caeiro sem metafísica é o aniquilamento da pessoa humana e, portanto, do pensamento, para existir só como mais um ser – pedra, regato, ovelha ou flor. Na pretensa fusão total com o univreso-natureza, até a sua voz com ele se irmana – « era como a voz da terra que é tudo e ninguém » (Álvaro de Campos, Notas para a recordação do meu mestre Caeiro). Não é nesta mistificação que vai encontrar solução para o seu drama. Se é ao espaço totalmente aberto que se entrega é porque tem pretensões – ele sabe que inúteis ! – a ser só esse fora que poetiza para minorar a sua trituração mental e para apagar a tortura de dentro. O fora élhe ditado por um dentro em que não encontra explicação nem razão para a vida.

Assim também em Reis, se bem que a natureza exterior na sua poética seja outra. O lugar que o heterónimo horaciano escolhe não é já pela encosta abaixo ; é a calma do « pouco espaço que é própria dos pincaros » (Álvaro de Campos, Nota preliminar às Odes de Ricardo Reis) ou a quietude da beira-rio simbolos do « antes sossego que fruição » a que quer aderir. Natureza plácida e fria procurada em fundo e forma, a altura ou a margem em que gostaria de se descobrir não as encontrará nunca porque a ataraxia a que é preciso ser fiel para ali se achar, não passa de outro sofisma, conducente, mais uma vez, ao « vácuo absurdo da existência » (Fernando Pessoa, António Botto e o ideal estético em Portugal) ?

É ainda no espaço aberto, continente de todo o processo de energia, que Campos pretende viver. É aos mares e às cidades, num abraço fraterno de civilização e máquinas, numa aceitação indescriminada de qualquer forma de vida, é ao mundo todo « na própria pele sentido », à máxima intensidade da sensação de todas as coisas, que ele se quer dar. A Campos tenta-o outra espécie de fora – o universo do social e do cosmopolita – mas a causa é a mesma : a vida do pensamento precisa de formar para si outro modo de fingir e espraia-se numa nova estruturação mental que desagua no absurdo.

Se em Caeiro e em Reis, o poeta falha por se despojar do humano, aqui falha por afundar a pique na vastidão do humano e o homem que se quis ponto de convergência de toda a realidade, que foi a insubstancialidade do que é insubstancial, depressa se desmascara : toda a actividade pressuposta nos gritos estridentes de algumas das suas odes, vai soçobrar no cansaço, na desilusão e na desagregação.

E assim, Campos é fiel a si próprio, a Reis, a Caeiro e a Pessoa ele mesmo.

Também este, na paisagem do crepúsculo, no ar de cada instante, no « universo da rua dos Douradores » ou na indeterminação de lugares se desobra ao sabor de brisas e marés não encontrando no exterior a unidade que não encontra dentro de si.

De carácter contemplativo, liberto das realidades próximas, Pessoa detém-se a procurar, num espaço qualquer, uma reposta para os seus problemas e a sua inteligência passa-o para o lado de lá do positivio. Na cisão com a realidade palpável, o poeta vai ainda encontrar uma forma nova de solidão no retorno ao infinito pelos ciclos de consciência englobante – várias vezes a sua poesia nos deixa supor um eu do eu, acima desse mais outro e assim sucessivamente :

« Não sou eu quem descrevo. Eu sou a teia / E oculta mão colora alguém em mim. ; Sinto que sou ninguém salvo uma sombra / De um vulto que não vejo … ; Além da minha alma, que outra alma há na minha? ; De quem é o olhar / Que espreita por meus olhos ? ; De onde é que estão olhando para mim ? / Que coisas incapazes de olhar estão olhando para mim ? / Quem espreita de tudo ? ; Não meu, não meu é quanto escrevo / A quem o devo ? / De quem sou o arauto nado ? (Cancioneiro) ;

Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta / Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos ? … (Campos) ; Anjos ou deuses, sempre nós tivemos, / A visão perturbada de que acima / De nós e compelindo-nos / Agem outras presenças. (Reis) ; Meu ser existe sem que seja meu / É anônimo persiste .. (Inédito) »

A sua poesia sugere antes sucessivos graus (e não fases) do eu, que iriam desde a personalidade concreta em dado momento até formas talvez descarnadas, e graduadas em série indefinida, de consciência cósmica mais ou menos contemplativa que ele designa, por vezes, como os deuses.

No devassar dos espaços, rompe com a vida imediata, vai cavando um fosso entre ele e essa vida. A contemplação da grandeza que tem em si, põe-no perante um mundo que traz a marca de um infinito e é assim que ele se encontra cada vez mais só. « Eu desejaria viver ou ser adentro de mim como vivem ou são os espaços » (Pacheco). E os espaços interior e exterior crescem e as duas imensidades tocam-se e confundem-se. É a solidão.

Até o processo estilístico do autor a vai revelar. Por trás das palavras está uma concepção do mundo, e, para Pessoa, a solidão entra de tal modo no âmago desse mundo que o sistema de vocábulos que integram a sua imagística do espaço é formado, predominantemente, por substantives, é o elemento estilístico menos revelador de movimentos emocionais. O uso do adjectivo, ingrediente de poder diferenciativo, poderia levar-nos a estabelecer uma escala de valores de aproximação ou afastamento no espaço, e assim, a determinar em momentos diferentes no tempo, momentos diferentes na solidão. Mas se o poeta atravessa a vida a esconder-se atrás dos seus óculos de míope e a entrincheirar-se nas suas variadas mistificações, por que razão não haveria de se esconder também na opacidade dos substantivos da sua poesia ? No entanto, ele não se esconde, antes se revela, nessa substantivação com pouca gradação adjectiva : é que o espaço imenso está sempre nele porque a solidão é total e inconscientemente surgo só o substantivo, palavra objectiva, metáfora a suscitar o real.

Debaixo da pluralidade de substantivos que se desdobram em imagens obsessivas ou em metáforas banais e que integram a sua poética de espaço aberto ou fechado, esconde-se a formulação de vários problemas que vão consolidar sempre e cada vez mais fortemente a certeza que o poeta tem de se encontrar só.

Pátria, largo, aldeola, gare, estrada, floresta, oásis, deserto, ilha, jardim, montanha, sul, lar, poltrona, muro ou porta são o disfarce da inutilidade e da aridez da vida, disfarce do mistério que para nós é a vida do concreto e do abstracto, da limitação do universo, do sentimento de passagem que o poeta tem a certas horas, da muralha da vontade impedindo realizações, da inacessibilidade a uma terra de promissão, seja ela um jardim, o quintal dos outros ou uma ilha. Toda esta problemática tem como resultante o sentimento da solidão.

[Maria da Glória Padrão, A Metáfora em Fernando Pessoa, 1981]

O Espaço ou a Solidão (1) a profundidade da solidão


Estou só, só como ninguém ainda estêve
[Álvaro de Campos]

É bem conhecido, e nada mais me cabe do que lembrá-lo, que um dos pontos de reflexão das considerações de Fernando Pessoa é a solidão a que qualquer ser humano está votado, mas ele muito especialmente, ao multiplicar os raciocinos com que põe em questão as categorias do real e com que pensa e repensa a sua posição do homem triplamente solitário : perdido diante da infinidade cósmica, divorciado dos outros por se ter adiantado demais aos companheiros de viagem e afastado de si próprio por não encontrar a unidade que nem os deuses têm. (« Deus não tem unidade, Como a terei eu ? »)

Ao longo da vida e da obra, Pessoa, está obsessivamente só, mas é ele o criador da profundidade da sua solidão e, consequentemente, é também o criador do espaço da sua poesia. Poeta entregue à vastidão de água, céu ou terra e à imensidão indefinida da ‘beira-ser’ ou de um além onde « os poentes são », é, por paralelismo, o homem entregue ao espaço individual e incomensurável de um mundo do pensamento que vai crescendo em extensões indeterminadas e que vai sondando a grandeza da solidão que traz em si.

A imaginação cria-lhe extensões arrancadas ao seu mundo intimo e é daí que surgem os espaços abertos que Pessoa ortónimo e heterónimo nos faz percorrer ao longo da sua poética. O deserto, ou a floresta volvem-se nos em espaço interior e não são aqueles que sugerem este, mas é o apelo intimo da imensidade que vai fazer surgir a extensão e a distância.

[Maria da Glória Padrão, A metáfora em Fernando Pessoa, 1981]

Friday, February 6, 2009

Liberdade (Fernando Pessoa)


Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não fazer !
Ler é maçada,
Estudar é nada.
Sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,

Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como o tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D.Sebastião,
Quer venha ou não !

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

Mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa, de Cancioneiro

Sunday, February 1, 2009

Une femme - avec des cheveux éclatants


Une Femme

Avec des cheveux éclatants,

Avec des yeux de mouette, avec une outre sur le ventre,

Mère ou traître bienveillant,

Qui connaît cette femme en feu?


Ses ongles approcent mon bois,

La fièvre de ses griffes éveille ma peau en rut.

Tel un cor de chasse elle me corne dans les cheveux.


Elle approche en replis et en éclairs,

Dans l'ardeur, la résine, l'éclat,

Tandis qu'en état de désir,

Pointé comme un fusil et irrévocable,

Prêt à l'attaque et au meurtre,

Courbé, agenouillé, j'enlace,

Je laboure et j'abats la bête qui embaume

Entre le doux cuir des genoux.


Elle fend mon silex

Dans la chaleur connue.


[Hugo Claus, Een vrouw trad. du néerlandais]

Saturday, January 31, 2009

Rilke - as Elegias de Duíno


A poesia é um território de misterios. E de mensagens codificadas que só os menos distraídos conseguem ler. É um torneio entre quem sente que o sangue lhe aquece demasiado as veias e quem tenta afastar o véu com que as palavras se escondem do sentido normal. Se o coração do mundo fosse feito de palavras a poesia seria uma religião. A úlima fronteira entre o que adivinhamos e aquilo que supomos poder existir. Rainer Maria Rilke é um dos maiores poetas deste século. Não é uma condecoração, é um heroísmo que dispensa foguetes. Ler As Elegias de Duíno é sentir que quando um poeta chega ao cuma da interrogação o segredo não se reparte. E a poesia de Rilke é feita de segredos que não têm chave para serem mostrados.

Aqui, nesta obra que começou a escrever em 1912, no Castelo de Duíno, junto a Trieste, e que só terminará uma década mais tarde, ele discorre sobre aquele que é o seu tema de sempre : as relações da vida com a morte. A sua ligação, como se a um mundo que percorremos correspondesse um outro – invisível – que é a consequência lógica. Em Rilke encontramos, como em muito poucos outros, a fúria da distância – o que separa os seres humanos das coisas que os cercam, e fundamentalmente uns dos outros.

Nós porém, quando tendemos inteiramente para Uma coisa logo sentimos o excesso de outra, A inimizade é-nos prôxima. Os próprios amantes que um ao outro se prometiam imensidão, coutada e pátria, não deparam constantemente com limites ?

A vida é então um conjunto de muitos segredos que se gerem, até que sejamos chamados sabe-se lá para onde (outro mistério). A poesia de Rilke desnuda-nos os limites do homem na sua fúria de viver sem sentido. A felicidade nunca poderia morar aqui. Rilke se deve ler quando o vento faz cair as folhas das árvores. Todas as certezas do mundo.

Friday, January 30, 2009

Mr. T's dancing a dream (pictural poetry)


Em desejo possuída
se joga,
se rasga,
se estraga
contra os móveis,
sobre as plantas,

entremuros,
se vê fera,
se faz cadela,
se morde serpente,

ferida em seu desvario
no mais escondido

recanto do seu
bem querer,
no seu coração

purple e ávido

que ela

desfibra devagar.

ela é mulher, ela é linda
ela me faz feliz



Mr. T.

Sunday, January 18, 2009

Tabacaria


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.


Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.


Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.


Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?


Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.


(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)


Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.


(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)


Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente


Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.


Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.


Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,


Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.


Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.


Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.


Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.


(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Fernando Pessoa - Álvaro de Campos (15.1.1928)

Saturday, January 17, 2009

O ar


O mar tem fim, o céu talvez o tenha,
Mas não a ânsia de Cousa indefinida
Que o ser indefinida faz tamanha.

[F. Pessoa, Cancioneiro]

O dinamismo da emoção ontológica de Fernando Pessoa vai eleger, também, como símbolo, um outro elemento material. Desta vez é no ar que o universo imaginário do poeta integra os sonhos com que constrói o tempo, os versos e a vida. Nem só a água testemunha a fidelidade ao seu movimento íntimo substancial; nem só na realidade da more lenta do devir hídrico ou no reconhecimento de um Mar-vida, integra a sintaxe de imagens sinónimas de uma acusação. Dado que a ele, como a qualquer ser humano, está impossibilitada uma horizontalidade de vida, o poeta tende, por impulso congénito e inamovível, para uma verticalidade, para um destino de grandeza e elevação. O ar é o elemento material fundamental dessa ascensão. Substância sem qualidades substanciais, sublimação evasiva de todas as imagens de desmaterialização, acção sem forma, fenómeno de repouso e de leveza, voo onírico, levitação, imaginária que acolhe todas as metáforas da grandeza humana, o ar é a libertação do mundo, uma mobilidade serena, um processo catártico que Pessoa facilmente encontra. Opõe-se à água-morte por ser plenitude e assim continua a água-vida. ‘Il réalise le superlatif du bonheur bercé : le bonheur porté.’ (G. Bachelard, l’air et les songes).

Na obra de Fernando Pessoa temos vários modos de captar a sua vocação ascensional através das objectivações poéticas que o ar toma mas em que nunca se cristaliza : o vento, a brisa, o som, o jogo de luz e sombra, o voo, a nuvem, o céu, o céu azul, a própria fluência da linguagem poética, mas, sobretudo, a noite.

Pela frequência recorrencial a estes jogos de palavras e imagens e pela sua carga poética, adivinhamos a tendência íntima para a eleição deste elemento e concluímos que Pessoa fez de si o abraço intimo e indestrutível da água-ar, na constante chamada para o abismo que é na morte e no constante apelo para o alto que é a vida.

[Maria da Glória Padrão, A Metáfora em Fernando Pessoa]