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Wednesday, January 21, 2009

To read Heidegger


To read Heidegger is to set out on an adventure – intriguing, challenging, and often baffling the reader – the words of Heidegger call him always to abandon all superficial scanning and to enter wholeheartedly into the serious pursuit of thinking.

Every philosopher demands to be read in his own terms. This is especially true of Heidegger. One must not come to him with ready-made labels, although these are very often given. Thus Heidegger is not an ‘existentialist’. He is not concerned centrally or exclusively with man. Rather he is centrally concerned with the relation between man and Being, with man as the openness to which and in which Being presences and is known. Heidegger is not a ‘determinist’. He does not believe that man’s actions are completely controlled by forces outside him or that man has no effective freedom. To Heidegger man’s life does indeed lie under a destining sent from out of Being. But to him that destining can itself call forth a self-orienting response of man that is real and is a true expression of human freedom. Again, Heidegger is not a ‘mystic’. He does not describe or advocate the experiencing of any sort of oneness with an absolute or infinite. For him both man and Being are finite, and their relationship never dissolves in sheer oneness. Hence absolute, infinite, or the One can appear to him only as abstractions of man’s thinking, and not as realities of essential power.

Heidegger is not a ‘primitive’ or a ‘romantic’. He is not one who seeks escape from the burdens and responsibilities of contemporary life into serenity, either through the re-creating of some idyllic past or through the exalting of some simple experience. Finally, Heidegger is not a foe of technology and science. He neither disdains nor rejects them as though they were only destructive of human life.

The roots of Heidegger’s thinking lie deep in the Western philosophical tradition. Yet that thinking is unique in many of its aspects, in its language and in its literary expression. In the development of his thought Heidegger has been taught chiefly by the Greeks, by German idealism, by phenomenology, and by the scholastic theological tradition. These and other elements have been fused by his genius of sensitivity and intellect into very individual philosophical expression.

[William Lovitt]

Sunday, January 18, 2009

Psicoterapia a partir de uma perspectiva fenomenológico-existencial


Pensar a psicoterapia a partir de uma perspectiva fenomenológico-existencial consiste em um remeter-se a uma análise do existir na dimensão da analítica da existência tal como foi desenvolvida por Heidegger em "Ser e Tempo".

Heidegger permite pensar na possibilidade de trazer à psicoterapia sua filosofia quando nos Zollikonner Seminaire refere-se à patologia como distúrbio da liberdade e da flexibilidade do homem singular e propõe que se recorra à psicoterapia para ajudar o homem a resgatar a liberdade e a flexibilidade na sua relação com o mundo.

Em "Ser e Tempo", heidegger refere-se ao homem em sua singularidade com a denominação de da-sein (pre-sença) que, como totalidade estrutural, se mostra na cotidianidade mediana, imprópria e impessoal, porém sempre como abertura para possibilidades de outras formas de expressão, quais sejam: autênticas, próprias e singulares. A pre-sença constitui-se num ente aberto às possibilidades, logo, em liberdade em seu modo de ser. Pode, então, se dar na impessoalidade, como no pessoal; pode ainda revelar-se na inautenticidade, bem como na autenticidade. Na verdade, nada se estrutura como definitivo, pois é a própria abertura da pre-sença, em sentido ontológico, que abre sempre às possibilidades, tanto em direção à autenticidade como à inautenticidade. Ao paralisar-se no modo da impessoalidade e da inautenticidade, a presença tende ao fechamento. Os limites de sua abertura para o mundo restringem suas possibilidades. Em fechamento, o homem esquece-se do ser e perde-se no ente.

Na duplicidade ente e ser, a pre-sença pode esquecer-se do ser e tomar-se como ente. Perdido no ente, a pre-sença vive do modo como o mundo dita que deve viver. No mundo do das man, perde-se no impessoal, no impróprio e no inautêntico. Esquece-se de sua liberdade de escolha no mundo das possibilidades e passa a viver no "É", as propriedades que o mundo lhe atribui. "É", no conformismo da massa, mais uma "ovelha no rebanho".

A pre-sença, no movimento do ser e ente, clama, tomada pela angústia por ser si própria, pessoal e autêntica, que implica, em última instância, em reconhecer-se como um ser-para-a-morte. Tal clamor ocorre, mesmo que na forma de estorvo, de inquietude, mesmo que silencioso ou disfarçado nos afazeres cotidianos. Incomoda, mas salva. Muitas vezes, ainda esquecida de sua liberdade, a presença justifica sua apreensão pelas situações exteriores: o governo, os pais, o inconsciente, enfim. Outras vezes, no entanto, o incômodo a mobiliza, e aí vai em busca da sua possibilidade mais própria do seu ser-para-a-morte.

Heidegger refere-se ao cuidado como constituindo a própria dimensão do ser da pre-sença, o pôr-se para fora: é o ec-sistir, movimento do existir. O cuidado - como processo de constituição da pre-sença - se dá no acontecer, isto é, no tempo. Cuidar constitui-se no exercício da pre-ocupação com o acontecer.

O cuidado constitui-se no movimento do existir, na abertura do ser do ente. O fechamento do ser do ente, a escassez da ec-sistência, significa dizer que se é mais do "ente" do que do "ontos". Uma maior fixação no "ente" resulta num fechamento, passando-se a ser isto ou aquilo. Abdica-se da condição de "ontos", fecha-se na entidade, que é expressão do "ontos", mas que também o vela. O "ontos" só tem uma maneira de se dar, que é a maneira do "ente". Porém o "ente"obscurece o "ontos". No movimento, o "ontos" se mostra e se esconde à maneira do "ente". A falta de movimento caracteriza a inflexibilidade.

Logo, têm-se nas reflexões de Heidegger a liberdade e a não-liberdade, bem como a flexibilidade, movimento do existir, e a inflexibilidade, fechamento. A psicoterapia propõe-se, nesta perspectiva, a abir caminho para que a liberdade e o movimento se dêem.

O percurso psicoterapêutico vai se dar de modo que o psicoterapeuta possa assumir o lugar de mensageiro do discurso do cliente, num processo mútuo de corresponder e des-prender, tal como entendido por Heidegger em sua perspectiva ontológica. No corresponder, a fala se desprende quando escuta. No des-prender, a escuta se dá simultaneamente com o responder. Compreender-se que é deste modo que se dá o processo de "escutas e falas" do psicoterapeuta e do cliente.

A psicoterapia aqui proposta se dá no sentido de acompanhar esse acontecer "ontos" e ente, no sentido do cuidado. Trata-se de uma psicoterapia que exerça o pre-ocupar-se, com o psicoterapeuta participando do acontecer do cliente. Na compreensão, cuidando do acontecer, facilita o reconhecimento do sentido mais próprio ou impróprio. Ocupar-se do acontecer cuida. Assim, entrega-se o estar-aí às possibilidades mais próprias, ao mesmo tempo em que se entrega o homem ao mundo, constituindo-se num estar-lançado.

O mundo próprio constitui-se com suas próprias possibilidades e limites. A psicoterapia, nesta perspectiva, não pensa em termos de realidade, mas de possibilidades. O psicoterapeuta prossegue no cuidado com o cliente na abertura de caminhos, restabelecendo o movimento, como acontecer, como ec-sistir.

Trata-se aqui da psicoterapia como um tornar manifesto o que é presente. Não importam, nesta perspectiva, os resultados, embora se pense em consequências, pelo modo de lidar com o mundo em liberdade, assumindo suas próprias escolhas. O psicoterapeuta vai atuar como um facilitador, cuja produção vai consistir em deixar aparecer o que se oculta.

A psicologia clínica numa perspectiva fenomenológico-existencial consiste em possibilitar um pensamento meditante, abrindo a possibilidade daquele que, em angústia, clama pelo seu poder-ser mais próprio, reconhecendo-se como ser-para-a-morte, pois encontra-se perdido no impróprio. Neste querer-ter-consciência pode descobrir-se em sua liberdade, tanto no que se refere à utilização das coisas, como no seu próprio fazer-se no mundo. Pode, ainda, descobrir sua serenidade no "inútil" e não se angustiar para se tornar um objeto de utilidade, para adequar-se às exigências do mundo do "das man".

Psicóloga Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo
Professora da PUC/RJ
Doutora em Psicologia na UFRJ
Presidente do IFEN

Saturday, January 17, 2009

Os Seminários de Zollikon


Considerado um dos maiores pensadores do século XX, Heidegger ocupa lugar estabelecido e incontestável no campo filosófico o que, por si só, já mostra o peso desta nova publicação. Mas, mais do que isto, a importância da iniciativa de se editar os Seminários de Zollikon no Brasil está no fato de que este trabalho facilitará o acesso do público não especializado ao pensamento heideggeriano, pois, este livro apresenta uma peculiaridade em relação aos outros do autor: os seminários não são endereçados unicamente aos filósofos ou especialistas, mas dirigidos aos médicos, psiquiatras e psicólogos. Isto não significa que o livro seja uma versão simplificada do pensamento heideggeriano ou, que apresente apenas discussões que transcendam o âmbito filosófico, indo para as temáticas da ciência em geral ou da ciência do homem. Nos seminários, Heidegger apresenta seu pensamento original e desenvolve sua análise, especialmente dos fundamentos subjacentes aos modelos científicos da Física, da Medicina, da Psicologia e da Psicanálise.

É importante salientar, também, que o livro é o resultado da iniciativa de Medard Boss, que, em 1947, escreve para o grande pensador, solicitando ajuda para uma melhor compreensão das suas idéias, em especial as desenvolvidas no livro Ser e tempo (1927).

A partir deste convite, Heidegger se dispõe a apresentar em Zollikon (Suíça) seminários regulares, durante dez anos (1959-1969), para um grupo de estudantes de medicina, de psiquiatras e de psicanalistas. Estes seminários foram registrados e, posteriormente, organizados e editados por M. Boss. Eles constituem a primeira parte deste livro.

A segunda parte apresenta os registros de Boss sobre suas conversas com Heidegger, que ocorreram, sobretudo, durante as estadas do filósofo em Zollikon, durante as viagens realizadas em conjunto por ambos e, também, durante as visitas de Boss a Heidegger na Alemanha. A leitura destes diálogos contribuem para o esclarecimento e o aprofundamento de questões importantes abordadas nos seminários.

A terceira parte consta das cartas de Heidegger endereçadas a Boss, no período de 1947 a 1971. Aí podemos notar aspectos que esclarecem o projeto de trabalho dos dois, bem como acompanhar o amadurecimento de sua relação pessoal. Nos prefácios da primeira e segunda edições alemã e no último capítulo, intitulado Palavras finais, além do prefácio da edição brasileira redigido por Marianne Boss, viúva de Boss, encontramos testemunho do longo convívio entre o médico e o filósofo.

Os seminários, os diálogos e as cartas revelam o modo como o pensador desenvolve suas idéias originais sobre diferentes temas, entre outros, o tempo, o espaço, o movimento, o corpo, a linguagem, o relacionamento do homem com os outros seres humanos e com as coisas presentes no mundo. Mostram, também, claramente a dificuldade inicial dos participantes dos seminários para se compreender efetivamente as idéias apresentadas pelo "mestre da Alemanha" . Tal dificuldade justifica-se pelo fato de sua filosofia requerer uma uma mudança radical de perspectiva para se pensar o homem, exigindo, assim, uma ultrapassagem do saber mensurável, explicativo e causalista presente no modo de pensar cotidiano e nas diversas teorias científicas.

Nestes seminários, Heidegger desenvolve uma crítica ao modelo de conhecimento científico utilizado pela Física, Química, Medicina e Psicologia. Do seu ponto de vista, as teorias psiquiátricas, psicológicas e psicanalíticas ainda permaneceram submetidas aos requisitos das ciências naturais. Elas não conseguem abarcar o modo peculiar do existir humano, pois transferem os fundamentos das ciências da natureza para as ciências humanas e pensam o homem como se ele fosse igual aos fenômenos da natureza, aos objetos ou às máquinas. O filósofo considera que a ciência, que visa ao estudo dos fenômenos humanos, necessita ser pensada e orientada segundo bases diferentes da ciência da natureza.

Para Heidegger, a palavra crítica significa, prioritariamente, distinguir e diferenciar; ele não a compreende em seu sentido mais habitual, de julgamento de algo, especialmente com um caráter depreciativo. A reflexão crítica de Heidegger sobre os fundamentos e o método científico das ciências naturais, não pretende destruir o método científico de investigação ou, mesmo, mostrá-lo como inadequado. A perspectiva do pensador é diferenciar ou distinguir o método pertinente à ciência que pretende estudar o homem, daquele que investiga os fenômenos não humanos. No entanto, quando ele discute o método da ciência, não se refere à metodologia e aos procedimentos empíricos de pesquisa, mas ao modo de acesso que já, anteriormente, pressupõe e circunscreve o próprio objeto de estudo.

Com o propósito de encontrar caminhos mais próprios que levem à compreensão da existência humana, Heidegger discute também alguns dos conceitos teóricos da psicanálise, como, por exemplo, a projeção, a introjeção ou a transferência e algumas questões da prática clínica da Psiquiatria e da Psicologia.

Aí podemos encontrar a oportunidade para a reflexão e para o esclarecimento de conceitos e temas diretamente ligados ao trabalho clínico, seja psiquiátrico ou psicoterápico. É muito comum que a interlocução do pensamento heideggeriano com a Psicologia e a Psiquiatria seja compreendida como mera aplicação de conceitos filosóficos na teorização e na intervenção do médico e do psicólogo. Boss nos ajuda esclarecer este equívoco. Heidegger entendia que a contribuição de seu pensamento para com o trabalho do médico ou do psicólogo se daria a partir do diálogo estabelecido entre os diferentes campos. No prefácio da primeira edição deste livro, Boss diz:
"Um dia, o próprio Heidegger confessou que desde o início tivera grandes expectativas da ligação com um médico que parecia compreender seu pensamento. Ele via a possibilidade de que seus insights filosóficos não ficassem limitados às salas dos filósofos, mas pudessem beneficiar um número muito maior de pessoas e, principalmente, pessoas necessitadas de ajuda" (p.11).
Assim, somente o diálogo do filósofo com a Psicologia, Psiquiatria e a Psicanálise poderia fornecer subsídios e indicações importantes para a elaboração e desenvolvimento do conhecimento dos fenômenos humanos. E tais subsídios foram aqueles que permitiram o estabelecimento da abordagem daseinsanalítica, seja em seus esclarecimentos da psicoterapia, seja em seus estudos dos modos de existir patológicos e saudáveis do homem.


Conforme os ensinamentos heideggerianos apreendidos nos seminários, Boss reinaugura a abordagem denominada Daseinsanalyse , tanto para a psicoterapia, quanto para a psicopatologia. Em 1971, Boss fundou junto com colaboradores o Institute für Daseinsanalytische Psychotherapie und Psychosomatik em Zurique e deu início à formação de psicoterapeutas daseinsanalistas. Atualmente, ela está representada em diversos países como Áustria, Bélgica, Brasil, Canadá, França, Holanda e Inglaterra.

[Ida Cardinalli]

Dois corpos


"Na verdade, porém, as lágrimas nunca podem ser medidas. Quando se mede, medem-se na melhor das hipóteses
um liquida e suas gotas, mas näo lágrimas.
As lágrimas
só podem ser vistas diretamente.
Qual é o lugar das
lágrimas?
Säo elas algo somático ou algo psiquico?
Nem
uma coisa nem outra ".
Seminários de Zollikon, Ed. Vozes. Sessäo de 11 de maio de 1965.

0 texto não é de um poeta ou de um psiquiatra. Martin Heidegger, um dos filósofos maïs importantes do século XX, dil essas palavras em uma conferência a psiquiatras na casa de um deles, Medard Boss, em Zollikon, nas vizinhanças de Zurique. Respondia assim ao que na época fora um trabalho bern conhecido de outro psiquiatra, Hegglin: "0 que o clinica geral espera da Psicossomática?".
Hegglin representava o que a todos parecia evidente: há uma distinçao entre o somático e o psiquico. Se podemos medir o soma, não podemos medir a psique, campo da intuição, do sentimento. 0 avanço da ciência garantiria, no entanto, uma mensuração sempre maïs abrangente: se ontem faltavam meios, amanhã seria possivel saber mais e mais. A psique seria lida em numeros, "em virtude da relação psicossomática" (diz Hegglin, p.3), medindo-se o corpo.
Por bas de sua ciência, Hegglin guarda a crença de que só a mensuraçã nos põe em contato om o real. Sua proposta: o psiquiatra que quer conhecer o luto de uma pessoa deve partir do volume de lágrimas. Heidegger contesta.
O filosofo recusa a distinção entre soma e psique, demonstra sua inconveniência. Lembra que o idioma alemão permite falar em dois corpos: Körper e Leib e assim começa a re-avaliar o problema.
Urn deles, corpos, importa especialmente a Heidegger e ao psicanalista. Jorge Forbes o distingue: o Leib.
Enquanto Körper é o corpo material, mensurável, com que lida o médico, Leib é o corpo-corpo, vida, que não se mede no espaço cartesiano e com o qual, aliás, não
podemos operar através de instrumento algum. Nenhum metro se oferece entre nós e o Leib.
0 Leib é determinante do Körper.
Para Iidar com o Körper temos estetoscópios, scanners, ferramentas. Agir sobre o Leib requer ir além. Requer uma ação sem intermediação, do homem sobre o homem.

Thursday, January 15, 2009

Encuentros con Ortega y Gasset por Heidegger


Quisiera referir brevemente dos recuerdos de Ortega y Gasset. Siguen en mi memoria como dignos de recordación.

El primer recuerdo se remonta al mes de agosto de 1951. Nos encontramos en la ciudad alemana de Darmstadt, donde en bien ceñido marco se celebran anualmente conferencias sobre un tema determinado. Aquel año versaban sobre el tema “El hombre y el espacio”. Entre los hombres de ciencia y arquitectos que habían sido requeridos a hablar, nos contábamos Ortega y yo. Después de mi conferencia, que llevaba el título “Edificar, habitar, pensar”, un orador empezó a disparar violentos ataques contra lo que yo había dicho y afirmó que mi conferencia no había resuelto las cuestiones esenciales, que más bien las había “despensado”, es decir, disuelto en nada por medio del pensamiento. En este momento pidió la palabra Ortega y Gasset, cogió el micrófono del orador que tenía a su lado y dijo al público lo siguiente: “El buen Dios necesita de los “despensadores” para que los demás animales no se duerman”. La ingeniosa salida hizo cambiar de golpe la situación. Pero no era sólo una salida ingeniosa, era sobre todo caballeresca. Este espíritu caballeresco de Ortega, manifestado también en otras ocasiones frente a mis escritos y discursos, ha sido tanto más admirado y estimado por mí pues me consta que Ortega ha negado a muchos su asentimiento y sentía cierto desasosiego por alguna parte de mi pensamiento que parecía amenazar su originalidad. Una de las noches siguientes volví a encontrarle con ocasión de una fiesta en el jardín de la casa del arquitecto municipal. En hora avanzada iba yo dando una vuelta por el jardín, cuando topé a Ortega solo, con su gran sombrero puesto, sentado en el césped con un vaso de vino en la mano. Parecía hallarse deprimido. Me hizo una seña y me senté junto a él, no sólo por cortesía, sino porque me cautivaba también la gran tristeza que emanaba de su figura espiritual. Pronto se hizo patente el motivo de su tristeza. Ortega estaba desesperado por la impotencia del pensar frente a los poderes del mundo contemporáneo. Pero se desprendía también de él al mismo tiempo una sensación de aislamiento que no podía ser producida por circunstancias externas. Al principio sólo acertamos a hablar entrecortadamente; muy pronto el coloquio se centró en la relación entre el pensamiento y la lengua materna. Los rasgos de Ortega se iluminaron súbitamente; se encontraba en sus dominios y por los ejemplos lingüísticos que puso, adiviné cuán intensa e inmediatamente pensaba desde su lengua materna. A la hidalguía se unió en mi imagen de Ortega la soledad de su busca y al mismo tiempo una ingenuidad que estaba ciertamente a mil leguas de la candidez, porque Ortega era un observador penetrante que sabía muy bien medir el efecto que su aparición quería lograr en cada caso.
El segundo recuerdo trae a mi memoria la gran casa abierta de un médico en los altos de la Selva Negra, donde una mañana de domingo, en un círculo de numerosos oyentes cruzamos con fuerza, pero con bella mesura, nuestros más afilados aceros. Estaba en discusión el concepto del “ser” y la etimología de este vocablo fundamental de la filosofía. La discusión puso de manifiesto lo muy versado que Ortega estaba en las Ciencias. También me puso de relieve una especie de positivismo que no me cumple juzgar, ya que conozco muy pocos escritos de Ortega y sólo en traducciones. La tarde de ese mismo día nos proporcionó a mi y a todos los presentes la impresión más recia y duradera de la magna personalidad de Ortega y Gasset. Habló de un tema que ni estaba previsto ni había sido formulado y que puede, sin embargo, cifrarse en el titulo “El hombre español y la muerte”. Cierto que lo que nos dijo le era familiar desde hacia largo tiempo, pero el cómo lo dijo nos desvela cuanto más avanzado estaba que sus oyentes en un campo que ahora ha tenido que traspasar. Cuando pienso en Ortega vuelve a mis ojos su figura tal como la vi aquella tarde, hablando, callando, en sus ademanes, en su hidalguía, su soledad, su ingenuidad, su tristeza, su múltiple saber y su cautivante ironía.

Martin Heidegger