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Friday, February 13, 2009

Do que são feito os sentimentos?


Do que são feitos os sentimentos? Como decompor e definir, por exemplo, o conteúdo da alegria? Se a pergunta parece complicada, um experimento mental pode dar uma ajuda: pense numa praia, num fim de tarde. Nenhuma nuvem no céu. Seu corpo está estendido na areia, suavemente aquecido pelo sol. Som de mar à frente, barulho de folhas ao vento atrás. Você se sente tão bem que começa a pensar em eventos prazerosos passados e a antecipar outros, futuros. Na sua mente, conflitos se amenizam, opostos deixam de se opor.

Para o filósofo holandês Benedictus Spinoza, você teria alcançado o estado de "perfeição maior", ápice da necessidade básica de todas as criaturas de prosperar na própria existência. O neurocientista português Antonio Damasio, que imaginou a cena descrita acima, tem uma outra palavra para isso: homeostase. Sentimentos nada mais são do que representações altamente elaboradas do estado de equilíbrio do organismo. Alegria, tristeza, empatia, orgulho, são todos, em maior ou menor medida, derivados de uma idéia que o cérebro faz do funcionamento do corpo. E, sim, existem áreas definidas no sistema nervoso onde essas representações são geradas.
A proposta está delineada em Looking for Spinoza: Joy, Sorrow and the Feeling Brain (Procurando Spinoza: alegria, tristeza e o cérebro que sente), livro do neurologista da Universidade de Iowa. Damasio se dedicou a buscar a base biológica das emoções e da consciência humana. Agora, ele tenta fechar o ciclo, arriscando que os sentimentos, o próprio espírito humano e, em última instância, Deus, são produtos da evolução da espécie e também habitam as ligações sinápticas.



Damasio sabe que a afirmação é forte e que vai causar mal-estar até mesmo entre cientistas. Não por acaso, o livro evoca Spinoza, o panteísta, filósofo excomungado em vida e banido em morte pelas heresias publicadas em sua obra a respeito da natureza humana e divina.

Em seus escritos, Spinoza igualou Deus à natureza, designando-o sob a famosa expressão "Deus sive natura" (Deus ou natureza), retirando a divindade de seu lugar e espalhando-a por toda parte, e propôs que a mente e o corpo são feitos de uma só substância. Provocou tanta fúria na sociedade, especialmente entre os judeus holandeses, que teve sua obra póstuma proibida. Nem seu cadáver escapou de ser roubado do túmulo.

A heresia de Damasio se volta a um das últimas fronteiras da neurociência. Enquanto a maioria dos neurologistas não se aperta em atribuir a áreas específicas do cérebro o controle sobre pensamentos e emoções -como medo e raiva-, os sentimentos parecem flutuar em algum lugar inespecífico, fluido, daquilo que se conhece de maneira não menos fluida como "mente". Resgatando a formulação do século 17 de Spinoza e traduzindo-a para a biologia do século 21, Damasio reafirma: corpo e mente são um só.

A escolha de Spinoza como personagem principal desse que está sendo considerado o livro mais pessoal de Damasio não é incidental: há mais coisas em comum entre ambos do que mera filosofia. Benedictus, que também era chamado de Baruch ou Bento, era filho de marranos, judeus portugueses que haviam fugido da recém-instalada Inquisição. Apesar de nascido em Amsterdã, Spinoza tinha como língua materna o português e publicou sua obra em línguas que ele confessou nunca chegar a dominar inteiramente, o holandês e o latim. O português Antonio, radicado há anos nos Estados Unidos, também é um exilado e publica suas obras numa língua estrangeira.
O que torna o holandês patrono não-reconhecido da neurobiologia, na visão de seu patrício, é a proposição, contida na terceira parte de sua "Ética", da necessidade, ou luta ("conatus", em latim) dos seres vivos para perseverar em ser, necessidade esta que acaba sendo a própria essência das criaturas.
O "conatus" de Damasio é a tendência do organismo a tentar funcionar da melhor maneira possível, evitando a dor e buscando o prazer.

Os biólogos conhecem bem esse mecanismo há tempos. Ele está presente do mais insignificante paramécio até o homem, que gosta de se considerar o topo da evolução, e é chamado de homeostase. No paramécio, um ser de uma célula, a homeostase se reduz a trocas de íons e à detecção de sinais que avisem sobre condições do ambiente, comida ou predadores. Com os humanos a coisa é diferente. A evolução dotou a espécie de um organismo complexo e de um cérebro idem. Para sobreviver com o máximo de bem-estar dentro de uma estrutura social também complexa, os humanos desenvolveram as emoções, que conferem ao organismo a capacidade de responder de forma eficiente a diversas circunstâncias boas ou ruins para a vida. Combinando emoções, memórias passadas, imaginação e raciocínio veio um mecanismo posterior -os sentimentos-, que deu a seus portadores a capacidade de responder criativamente a uma gama quase infinita de ameaças e oportunidades.

A função primária dos sentimentos, portanto, seria homeostática. E as regiões do cérebro nas quais eles são produzidos começam agora a ser identificadas, graças a técnicas de imageamento do sistema nervoso como ressonância magnética e tomografia por emissão de pósitrons. As candidatas mais fortes, até agora, são as áreas responsáveis pela produção de mapas do estado do corpo, como a ínsula e o córtex pré-frontal. Essas áreas recebem informações sobre o que acontece dentro e fora do organismo e elaboram o tempo todo representações de como vão as coisas. Claro, elas podem ser enganadas e produzir mapas falsos -é o que acontece quando se usa heroína, por exemplo. Podem ser destruídas por lesões cerebrais, como no caso dos pacientes com dano na área pré-frontal, que perdem a capacidade de sentir vergonha ou culpa.
Das representações do próprio corpo derivam também as representações de corpos alheios, ou a empatia, a capacidade de se colocar no lugar de alguém. E, segundo Damasio, daí surge o comportamento ético, que garante sobrevivência com bem-estar a todo o grupo.

A necessidade de autopreservação, ou o "conatus" spinozano, também entra em ação quando se confronta a realidade da morte e do sofrimento. "A perspectiva quebra o processo homeostático do observador", diz Damasio, que conclui serem os sistemas religiosos uma forma de restaurar esse equilíbrio. Spinoza se opõe à idéia de que a salvação venha por intermédio de um deus ou da imortalidade da alma; Damasio parece depositar no comportamento ético, aliado ao conhecimento científico, a responsabilidade por ela.
No esforço de unificar emoções, consciência e sentimentos sob a lupa da ciência, Damasio pode ser perdoado por eventuais atropelos. Apesar de deixar claro que essa é apenas a primeira aproximação do tema, professa que o importante é uma mudança de atitude em relação ao cérebro, não mais tão misterioso.

Sunday, January 25, 2009

The Ghost in the Machine


The placebo effect, multiple personality disorder, and spontaneous remissions give us important clues about “the forces that operate in vis medicatrix naturae.” One of the things they teach is that to understand the nature of the body’s self-healing intelligence, we must understand the nature of the mind and the relationship between the mind and body. When belief, or what we might term ‘a stable state of knowing’ is involved, the mind appears unreasonably capable of shaping physiological outcomes. Yet, in trying to understand the mechanics that turn ‘knowing’ into healing, we run up against the limitations of the underlying theoretical model of allopathic medicine.

The relationship between mind and body is an age-old puzzle. For centuries, the practice of medicine has been influenced by a conceptual heritage from Descartes – the dualist notion of mind and body. Descartes viewed mind and body as two separate substances: res cogitans is a thinking substance which is unextended and indivisible, and res extensa denotes all the physical substances, which have extension in space, i.e. they can be measured and analysed, and which exist independently of res cogitans. In this model, the human body functions completely independently of the mind. The human body, wrote Descartes, is a machine mad up of bones, sinews, veins, blood and skin, and fitted together “in such a way that even if there were no mind in it, it would still carry out all the operations that … do not depend upon the command of the will, nor therefore, on the mind.”

Although he considered mind and body as two separate essences, Descartes did not deny their ability to interact. The translation of a mental impulse into a physiological action is so commonplace that we don’t even think about it. If you decide to reach for a glass of water, your arm extends automatically and your hand grips the glass. Yet, from the point of view of the dualist model, this is an inexplicable phenomenon. How can a non-physical substance influence a totally separate physical substance? Descartes proposed that mind and body interact through the small part of the brain known as the pineal gland, but he neglected to answer the question of how the non-physical mind acts on the pineal gland.

In spite of its obvious shortcomings, variations of the dualist notion of mind and body influenced the practice of medicine in the centuries after Descartes. Early Greek physicians emphasized that some patients’ complaints had their root in mental factors, but after Descartes the mind was denied a role in the disease process. Cartesian dualism influenced the biomedical model which is still commonly accepted today. According to this model, physical disorders are afflictions brought about by a disruption of physiological processes, which in turn may result from bacterial or viral infection, biochemical imbalances, injury, etc. The mind is not a contributing factor.

The dualist model of mind and body had too many deficiencies to remain unchallenged, and many alternative models have since been proposed. In the twentieth century, the scientific community has come to regard the mind as a product of the interaction of matter. In this materialist model, mental events are explained with reference to purely physical principles – a thought is the end result of the complex interaction of neurophysiological processes.

“[Y]our joys and your sorrows, your memories and your ambitions, your sense of personal identity and free will, are in fact no more than the behavior of a vast assembly of nerve cells and their associated molecules.” Says scientist Francis Crick, who shared a Nobel prize for discovering the structure of DNA. But if the mind is simply an outgrowth of physiological factors, again there is no apparent reason why it should play a role in the disease process. How could something pervasively influence that of which it is but a product?

Yet, the link between mental factors and the development of disease has been impossible to ignore. Researchers like Dr. Hans Selye, who introduced the stress concept, and Franz Alexander, who introduced the notion of psychosomatic disease, were among the early pioneers who tried to identify the mechanisms through which mental factors might lead to physiological disease. In the last 30 years, these attempts have been spearheaded by researchers in the multidisciplinary field of psychoneuroimmunology. This new field of research focuses on the interplay of psychosocial actions, brain processes, and the immune system.

Almost everywhere they have looked, researchers have found a smoking gun linking psychological factors with disease. If a randomly selected group of people are all exposed to the same infectious agent, such as a cold virus or streptococci bacteria, as few as one fifth of them may actually develop symptoms of infection. Heart disease appears to be more prevalent among individuals who have a high degree of anger, hostility, and cynicism. Depression, feelings of hopelessness, or repressed negative emotions may predispose a person to cancer. People with a pessimistic explanatory style, who tend to blame themselves for negative events and perceive the effects of these events as durable and pervasive, experience poorer health when they reach middle age. Social isolation appears to be especially marring; it is involved in the development of a whole range of diseases, including heart disease, cancer, depression, and arthritis.

In other words, environmental stressors are not the only factors that influence health. Internal ‘stress’, in the form of negative emotions or feelings of loneliness, plays a role as well. Simply being in good psychological health may provide the best protection of all against disease.

Saturday, January 17, 2009

Dois corpos


"Na verdade, porém, as lágrimas nunca podem ser medidas. Quando se mede, medem-se na melhor das hipóteses
um liquida e suas gotas, mas näo lágrimas.
As lágrimas
só podem ser vistas diretamente.
Qual é o lugar das
lágrimas?
Säo elas algo somático ou algo psiquico?
Nem
uma coisa nem outra ".
Seminários de Zollikon, Ed. Vozes. Sessäo de 11 de maio de 1965.

0 texto não é de um poeta ou de um psiquiatra. Martin Heidegger, um dos filósofos maïs importantes do século XX, dil essas palavras em uma conferência a psiquiatras na casa de um deles, Medard Boss, em Zollikon, nas vizinhanças de Zurique. Respondia assim ao que na época fora um trabalho bern conhecido de outro psiquiatra, Hegglin: "0 que o clinica geral espera da Psicossomática?".
Hegglin representava o que a todos parecia evidente: há uma distinçao entre o somático e o psiquico. Se podemos medir o soma, não podemos medir a psique, campo da intuição, do sentimento. 0 avanço da ciência garantiria, no entanto, uma mensuração sempre maïs abrangente: se ontem faltavam meios, amanhã seria possivel saber mais e mais. A psique seria lida em numeros, "em virtude da relação psicossomática" (diz Hegglin, p.3), medindo-se o corpo.
Por bas de sua ciência, Hegglin guarda a crença de que só a mensuraçã nos põe em contato om o real. Sua proposta: o psiquiatra que quer conhecer o luto de uma pessoa deve partir do volume de lágrimas. Heidegger contesta.
O filosofo recusa a distinção entre soma e psique, demonstra sua inconveniência. Lembra que o idioma alemão permite falar em dois corpos: Körper e Leib e assim começa a re-avaliar o problema.
Urn deles, corpos, importa especialmente a Heidegger e ao psicanalista. Jorge Forbes o distingue: o Leib.
Enquanto Körper é o corpo material, mensurável, com que lida o médico, Leib é o corpo-corpo, vida, que não se mede no espaço cartesiano e com o qual, aliás, não
podemos operar através de instrumento algum. Nenhum metro se oferece entre nós e o Leib.
0 Leib é determinante do Körper.
Para Iidar com o Körper temos estetoscópios, scanners, ferramentas. Agir sobre o Leib requer ir além. Requer uma ação sem intermediação, do homem sobre o homem.